sexta-feira, maio 07, 2021

4 PÃO INCERTO

                                                                                                                                         por CarlNasc


Natural de Faro, António Assis Esperança, (27/03/1892 a 3/3/1975) foi um escritor e jornalista português, autor duma dezena de romances. Foi colaborador da Seara Nova, um dos fundadores da Sociedade Contemporânea de Autores, e pertenceu à primeira direcção da Sociedade Portuguesa de Escritores (ambas encerradas pelo Estado Novo).

A sua obra consiste numa escrita de intervenção social, podendo até apresentar uma marca ideológica que a aproxima do movimento neo-realista, neste romance focada sobretudo nas condições de vida dos camponeses e no papel da mulher na sociedade, e neste caso, em diversos estratos sociais.

Hoje é uma figura praticamente esquecida, com fraca representação em bibliotecas públicas, e as suas obras há muito que desapareceram das livrarias. Alguns municípios do Algarve incluíram o seu nome nas respectivas toponímias, inclusivamente Aljezur, na Igreja Nova.

Em homenagem a Aljezur e ao seu povo, Assis Esperança escreveu um belo romance sobre a pobre vida dos agricultores e das suas famílias, e a sua luta pela melhoria das condições de vida. O habitual confronto de gerações em que os mais novos, sobretudo se mulheres fossem, se afirmam pela diferença, desejando a emancipação, enfrentando os costumes antigos que as subordinam, ao mesmo tempo que procuram o par que esperam lhes traga uma vida nova e a independência dos progenitores.

Personagens principais:

Maria da Graça, moça casadoira, reside com o pai a quem ajuda nalgumas tarefas do trabalho do campo, mas sobretudo trata da casa e da criação; namora com António contra a vontade do pai que o recebeu a tiro de caçadeira e lhe declarou que “A minha filha não é para os teus dentes.” Maria da Graça percebe muito bem a sua situação “Tudo e todos entregues à Divina Providência, como enxergar o meu futuro? Nem casa, nem terras, toda a vida na serra?” Encara o namoro com António como a possibilidade de sair da serra e deixar o trabalho que a faz considerar-se escrava do pai. Maria da Graça e António, mais do que prometidos, são amantes e mantêm encontros secretos.

António deixou o trabalho de criado de lavoura para ir trabalhar na recém-aberta mina de ilmenite, óxido de ferro e titânio neste caso extraído dos areais, mas cujo futuro é ainda incerto dependendo a empresa da riqueza do filão, ainda em análise. Acaba por fechar e António fica de novo com o futuro comprometido, não conseguindo a aceitação do pai da sua namorada.

Francisco da Várzea é o pai de Maria da Graça. Lavrador esforçado, que pensa que a riqueza provém sobretudo da terra e do respectivo trabalho com afinco; porém o produto mal dá para o pagamento das rendas.

Manuel da Eira é o manajeiro, o homem que, por delegação do proprietário da Herdade de Montedor, no Alentejo, efectua a escolha e a contratação de um rancho (maioritariamente feminino), para executarem os trabalhos nos arrozais da Comporta e arredores, desde o plantio, à monda e à ceifa.

Ambiente:

Uma primeira parte deste romance tem lugar em Aljezur, basicamente na vila e no lugarejo onde residem as personagens principais, o Monte da Boavista, vagamente localizado “lá p’rá serra”.

O autor recusa usar o nome verdadeiro da vila e inventa o nome diferente de Alfamar.

São apresentadas algumas famílias de agricultores, as suas dificuldades com o trabalho das terras, o uso habitual da mão-de-obra familiar, usando os braços dos filhos ainda jovens e, inclusivamente das raparigas. Ressalta da vivência de então o habitual confronto de gerações. No caso deste romance, Francisco da Várzea acha que o sustento advém da posse e do trabalho da terra, não se permitindo perder os braços da filha, que ao casar sairá da sua casa, sem que o facto traga qualquer contributo à sua estabilidade financeira, muito pelo contrário, levantava a questão do dote, como se com os pobres deixassem de casar por falta dele.

No Café da Chica os lavradores discutem e trocam informações, na véspera da feira anual, para melhor se posicionarem face aos marchantes que vêm de longe, até de Santarém, pela fama que o gado dos serranos tem. Mas os lavradores ainda se lamentam com as campanhas do trigo, e com a entrega ou não da colheita à Fundação, gentes que vivem do trabalho das terras alheias e que lidam ano após ano com o drama das colheitas que se perdem.

A feira marca o início do ano agrícola, mas não só. Lá se mercam os apetrechos para a actividade agrícola e que as lojas da vila geralmente não têm. Lá se fazem os negócios do gado, uns melhores e outros não, os compradores combinam-se numa espécie de cartel para não excederem valores previamente combinados. Lá se compram os bezerrinhos e os bácoros para a engorda.

O drama das famílias reflecte-se depois no apalavrar dos ranchos que hão-de ir para os lamaçais do arroz na Comporta. A contratação é feita pelos manajeiros que previamente tentam avaliar a situação de debilidade financeira das famílias serranas, para o aliciamento com o soldo sempre baixo, levando os lavradores a fazer contas antes de “atirarem as filhas para fora de casa”, pois “já apartaram as que Deus lhes deu”, que pouco contavam com o escasso rendimento das “ervas” do mar. O Manajeiro é como se fosse o dono do trabalho, o empregador, escolhe as moças mais jeitosas para o trabalho e algumas mais “dadas” por recomendação do patrão, indo procurá-las nas famílias mais aflitas, de conluio com os lojistas que lhes fiavam o sustento e que, melhor que ninguém conheciam as situações de carência.

“Ir p’ró Alentejo”, assim mesmo fazendo parte do léxico aljezurense, representava para muitas famílias a possibilidade de obterem algum dinheiro, com o qual contam para equilibrar o livro de fiados, comprar um vestido ou um par de botas. Para tal suportam o custo do afastamento, do deficiente e promíscuo alojamento nos barracões da herdade, da constituição de nova dívida na cantina, da sujeição ao assédio seja por parte dos manajeiros, feitores ou até mesmo dos trabalhadores da herdade, resistência que nem todas conseguiam aguentar sem sucumbirem.

Durante os vários meses da permanência dos ranchos no Alentejo, o autor vai desmontando as atitudes prepotentes quer dos patrões, quer dos seus homens de mão, na luta pelas oito horas de trabalho em substituição do horário de sol-a-sol.

No seu gabinete, o patrão inquire os trabalhadores, um a um: “— Quem foi o primeiro a lembrar-se de meter todos à bulha? Quero saber quem foi.”

Responde corajosamente cada um deles “— Fomos todos!”

Conversam eles, receosos: “— Com a mania da redução de despesas pensará dispensar alguns de nós? É só levar dinheiro para Lisboa!”

E elas, “debruçando-se para dentro das suas caixas vazias, como alguém procurando aquilo que não tem”, “a guardarem desde muito novas e do seu precoce diálogo com o silêncio, o sentido de vida que corresponde à passividade animal de fêmeas”.

 

Set2020 por CarlNasc

 

3 GENTE DA SERRA

 por CarlNasc

 

Gostaria de partilhar convosco mais um livro escrito por um aljezurense e que tem como cenário Aljezur. Mais um que parece estar esquecido nas gavetas da memória daqueles que o conheceram; acho que tem um natural interesse até para reviver costumes e situações que as gerações actuais nunca conheceram. Trata-se de Gente da Serra


de ELIAS NEMÉSIO, pseudónimo de Monsenhor Cónego Manuel Francisco Pardal.

Sendo natural de Aljezur e conhecendo bem os sítios e as suas gentes, foi quiçá fácil para o autor situar a acção no concelho, elegendo da população que bem conhecia as personagens que integram o romance. Publicado pelo autor em 1931, tem como subtítulo “Ensaio sôbre o casamento, emmoldurado em quadros rústicos” e é dedicado a sua mãe.

Aquando do centenário do nascimento do autor, em 1997, a Câmara Municipal publicou uma edição fac-simile, criando assim uma oportunidade para que as gerações mais recentes se familiarizassem com a obra.

Ao lermos não podemos deixar de identificar nesta ou naquela pessoa, neste ou naquele comportamento, indícios que reconhecemos e caracterizamos como aljezurenses. As vivências do dia-a-dia e dos dias de festa, a vida no campo, na agricultura e na criação de gado.

Os “bons”, tementes a Deus, pautam o seu comportamento e atitudes pela moral católica, supervisionada pelo Pe. Fabrício (que “idealizara uma freguesia, onde todos, à custa do seu apostolado, que Deus abençoaria, vivessem na graça do Senhor”); várias páginas do livro são inteiramente dedicadas à meditação do Pe. Fabrício e às suas conversas com as pessoas, sempre subordinadas aos ensinamentos e exemplos de Cristo. Compadre de muitos, era o confessor, o conselheiro, o pacificador de almas e o pai espiritual.

Os “menos bons”, recorrendo a práticas pouco recomendadas para lograrem os seus objectivos, como se nestas questões, e trata-se do jogo do amor (ou do interesse), tudo valesse.

Há momentos, na casa do lavrador José Afonso, que são uma autêntica extensão do púlpito, e da sacristia, mas também se gera uma pequena discussão onde são aflorados modernos problemas de igualdade de género, das reivindicações femininas de frequentarem o Liceu e até a Universidade e virem a desempenhar profissões fora do lar, confrontando-se as opiniões mais controversas.

O autor inclui na sua narrativa vários sítios que são outros tantos palcos da acção. O mais destacado é o Monte do Bemparece, onde reside a principal personagem feminina, Maria de Sousa, a Sousinha, com os seus pais, os lavradores: a senhora Armindinha e o senhor José Afonso; a Azenha, mais difícil de localizar, onde reside a família Labrusca, a senhora Francisquinha e Ti Labrusca e o filho Chico, namorado da Sousinha; o sítio do Brejo, da senhora Sebastiana e do seu filho José da Costa, o Zé Gordo, alfaiate aspirante a Regedor, o intriguista e pouco escrupuloso pretendente da Sousinha.

São ainda referidas localizações como o Degoladoiro, a Portelôa, a Portela Alta, as Cêrcas, o Camarate, a Corte-Sobreira, o Vale da Nora, o Rincão, o Moinho do Lucas, a Malhada Velha, o Cabeço de Águia, a Barrada e a Várzea, os Montes Galegos e razão do seu nome e da ligação à lenda das Sagradas Cabeças, o Carriçal, o Vale Palheiro, os Casais e Marmelete, e ainda a Carrapateira e o Rogil.

Sobressai ainda a Custódia Alamôa, uma pobre mendiga mas que é, simultaneamente, “uma grandíssima alcoviteira”, a quem o Chico recorre para armar um destrate entre a família do Chico e da Sousinha e poder aproveitar um eventual rompimento do namoro destes dois.

Frequentemente, e na verdade como era e ainda é habitual, são citados vários ditos e ditados, de que destaco os seguintes:


“Quem tem padrinho, não morre moiro.”

“Como a casa do Gonçalo, onde pode mais a galinha do que o galo.”

“Vale mais o corrido que o lido.”

“Pelos Domingos se tiram as Segundas.”

“O burro não embica duas vezes na mesma pedra.”


Para desfazerem na escolha de Fernando, irmão da Sousinha, por um moça serrenha, cantam-lhe quadras a escarnecer indirectamente a sua pretendida, a Isabelinha dos Casais:


As donzelas de Monchique,

São bonitas, mas sem dentes;

Porque bebem água fria,

E comem castanhas quentes.

O casamento das personagens principais decorre à “moda antiga”, sem carros, com festas nas casas das duas famílias ao longo de dois dias, com muita música e bailarico, ocasião para se cantarem quadras alusivas ao matrimónio, aproveitando o lavrador para uma espécie de baile mandado que, no século passado, se radicou no baixo Algarve, como se no barlavento não se praticasse:


A moda do puladinho,

Há muito que cá não vem.

Tudo certo, puladinho!

Acerta, acerta, meu bem.


Finalmente recolhem os noivos à casa onde irão residir pelo que “desabelhou toda a gente para ver o grande acompanhamento que vinha trazer os noivos à sua casa”.

Este texto de leitura agradável merece a atenção e um lugar na estante de todo o aljezurense.

Jun2020 por CarlNasc

2 ALJEZUR, TERRA MIMOSA

 por CarlNasc

 

Neste blog, “barlaventino.blogspot.com”, publiquei há cerca de dez anos referências a esta obra, e esse texto sairá agora estampado no Algarzur.

Trata-se de um livro inteiramente dedicado à nossa terra, editado em 1938, raríssimo mesmo entre os aljezurenses mais antigos. Aqui desafio a Câmara Municipal a localizar um exemplar e proceder a uma edição fac-simile, pois me parece disso ser a obra merecedora.




Muito falavam os mais antigos deste livro, inclusivamente nos serões na Casa Grande, que glorificava a nossa terra, coisa pouco vista, fosse na imprensa escrita ou, mais raramente ainda, na rádio telefonia; não se conheciam quaisquer outras referências nos ficheiros das Bertrands, Baratas ou Sás da Costa, das mais conhecidas na grande cidade.

Por mero acaso, há uns anos, nas inesquecíveis conversas com a Tia Zulmira na sua casa da Ladeira, mordiscando um figuinho seco ou chupando um torrão de açúcar, (quem a conheceu seguramente lhe reconhecia um grande orgulho na sua terra e um profundo conhecimento da história da vila, sobretudo da contemporânea), vem à baila o livrinho.

Eu tinha dele uma imagem geral, mas como há muito desaparecera da estante lá de casa, já mal me lembrava do seu aspecto e dos pormenores do seu conteúdo.

A tia Zulmira levantou-se e, após uma curta espera, regressou trazendo nas mãos um velho exemplar desta obra. Com um sorrisinho orgulhoso colocou o livro sobre a mesa, à minha frente, sublinhando o seu gesto com um “Querias vê-lo, aqui o tens!”

Fina brochura de 100 páginas que folheei apaixonadamente e com todo o cuidado, pois estava a desfazer-se, enquanto a tia Zulmira recitava, de cor, um dos hinos de louvor


“Aos Homens da minha terra”

 

“Aljezur, de fidalgas e nobres tradições,

Tem tido filhos dilectos bem ilustrados

Como os Sintras, os Marreiros, os Furtados,

Os Mendonças, os Correias e os Serrões.

 

E os Duartes, também nas suas funções.

Teem desempenhado bem os seus mandados

Pois todos se guiam p’los seus antepassados,

Homens impolutos de firmes convicções.

 

Os tempos são outros, outro é o caminho

Aos homens de Aljezur, porque o destino

Também vai caminhando p’ras realidades.

 

Lembrai-vos conterrâneos que chegou a hora

De vermos ressurgir uma nova aurora,

Ao nosso torrão natal, com prosperidades!”

 

clamando com o ênfase que a chave-d’ouro impunha, e soltando uma lagriminha de nostalgia pelos tempos em que ela o fizera nas récitas da sua juventude.

 

Louvados os “Homens da minha terra”, não fogem à louvação as moças que lhes dão voltas à cabeça:

 

“As Moças de Aljezur”

 

1

As moças da minha terra

São ladinas, são vivazes,

E até mesmo as da serra

Endoidecem os rapazes.

4

E lá no Degoladoiro

Ela é mais desconfiada,

Defeito esse que vem do moiro

E duma época passada.

2

As que moram nas Cabeças,

Lá nos seus alcantilados;

— Vê lá bem não entorpeças, —

Dizem os seus namorados.

5

Quando olham p’ra quem passa,

Oh! Que olhar tentador!

Teem infinita graça,

Naquele olhar sedutor.

3

E as do centro da vila

Teem um andar subtil,

E um sorriso que jubila

Como as manhãs d’Abril!

6

As moças da minha terra

São ladinas, são vivazes,

E até mesmo as da serra

Endoidecem os rapazes.

 

A citação deste livro deve-se sobretudo à demonstração de um grande orgulho aljezurense, que além das páginas iniciais em prosa, canta Aljezur em versos de forma e métrica várias; não desmerecendo naturalmente outros poetas mais recentes que a nossa terra têm representado, como Noémia França, Ernesto Silva, Carolina do Valle, Gertrudes Novais, Arselino e Fábio entre outros (que me perdoem as omissões), este “Aljezur, Terra Mimosa” foi/é uma marca importante na divulgação e promoção do nosso concelho, num estilo romântico e popular.

 

Nota: Algumas palavras mantêm a ortografia do livro.

Praia de Buarcos,

Setembro de 2020

1 Aljezur na literatura do século passado

por CarlNasc


Gostava de citar algumas obras literárias, do século passado, que se focam em Aljezur e que já se converteram em verdadeiros clássicos, embora pouco conhecidas e conhecidas de poucos, tendo os seus autores abandonado esta vida há vários anos.

Elejo aqui três dessas obras com que me familiarizei desde sempre, pois eram parte do nosso pequeno acervo literário:

·         “Gentes da Serra” de Elias Nemésio, pseudónimo do Mons. Cónego Manuel Francisco Pardal, publicado em 1931;

·         “Aljezur, Terra Mimosa” de Manuel Garcia, publicado em 1938;

·         “Pão Incerto” de Assis Esperança, publicado em 1964.

A primeira e a última são romances que reproduzem o ambiente e as vivências aljezurenses, nos anos que constituem o espaço temporal da trama. Aos seus autores é reconhecida a competência da expressão escrita, com publicações em vários jornais, sendo Assis Esperança já um escritor consagrado, com vários romances publicados. Quanto à segunda obra, é um hino ao concelho e às suas gentes (uma monografia regional, no dizer do seu autor), em verso e em prosa.

Com excepção do Monsenhor Cónego Pardal, a quem a Câmara Municipal prestou a devida homenagem em 1997, pela passagem do centenário do seu nascimento, não se conhecem quaisquer manifestações oficiais de divulgação de outras obras.

Quem sabe, ao voltar a falar-se destes livros, o pelouro da cultura da Câmara Municipal de Aljezur, ou até a ADPHAA, possam vir a interessar-se pela reedição de alguma delas. Aljezur, Terra Mimosa, há muito desaparecida dos escaparates, algum antigo patrício poderá dispor de um velho exemplar que possa ser objecto de edição fac-simile; já o Pão Incerto, esgotado desde os anos 60, com alguma insistência ainda se conseguirá adquirir no mercado dos alfarrabistas.

No próximo Algarzur, com o objectivo de melhorar a divulgação e talvez motivar os leitores para a sua procura e leitura, iniciarei um conjunto de três apontamentos sobre as obras aqui referidas.

Praia de Buarcos,

Setembro de 2020

sábado, agosto 19, 2017

O Marciano partiu...




Deixou-nos ontem, 18 de Agosto de 2017, o Aljezurense Marciano Martins da Silveira, a escassas semanas de cumprir os 93 anos.

Como muitos patrícios, deixou Aljezur muito jovem para seguir a Marinha, onde percorrendo a tarimba, atingiu o posto de 1º Tenente.

Na família dos Martins da Silveira ocupava o lugar de “o mais velho”, assumindo sempre a “função” de bem dispor toda a companhia.

Foi um homem íntegro, esposo, pai, avô, tio e primo dedicado. Era um homem de família. O repositório da nossa história.

Há tão pouco tempo que partiu e a saudade já é grande.

Que repouse em paz. Estará sempre nos nossos corações.

Até qualquer dia… meu tio, sempre como se fora meu pai.

sexta-feira, agosto 11, 2017

Memória da Quinta-feira de Ascensão



Mas afinal quando é a Quinta-feira da Espiga? A menina Guida já explicou na Doutrina que é 40 dias depois da Páscoa, comemorando a altura em Deus Nosso Senhor subiu aos Céus. Mas a menina Idalina, que dá a Doutrina ao grupo das mecinhas, disse que não são bem os 40 dias, mas sim catorze semanas a partir da Páscoa. A Senhora Marquinhas, que é quem manda na Doutrina, é que sabe. E ela diz que o que vem na Bíblia são os 40 dias.

­ - Ê cá na sê bem! O qu’ê sê é que amanhão vamos ó campo apanhar os raminhos de espigas.

Combinei com os amigos Carsalberto e João irmos dar a volta no intervalo do almoço da escola, qu’é quando tudo pára por causa de ser o “dia da hora”. Vamos começar pela Barrada com o trigo, donde se faz o pão, e as papoilas que estão no meio do trigo e são da cor do coração. Descemos à horta do Ti Saroidinho pr’ós raminhos de oliveira, para não faltar o azête. Junto à vala, na várzea, apanhamos os malmequerzinhos amarelos que, diz a minha tia, é p’ra não faltar o dinheiro. No mê quintal vamos apanhar as folhas da minha parrêra que, diz o mê pai, é p’ra não faltar o vinho.

‑ Atão e os bocadinhos de rasmono? – Intervém o Casalberto. ‑ Temos de dar um salto lá por trás, ao pé da Fonte das Mentiras ou no caminho do Vale Palhêro. Lá é que há, qu’ê sê! É por lá que o vão apanhar p’rá fogueira do Sant’António. Ouvi-os a combinarem.

‑ E se eles já o foram apanhar para pôr a secar ao pé do mastro? Se calhar podemos ir roubar uns bocadinhos, qu’é pr’ó ramo cheirar bem! – Era o João a querer poupar a caminhada.

‑ Tás mas é parvo! Levavas logo qu’era p’ra aprenderes!

‑ Quantos raminhos vão fazer? Ê cá preciso de dois: um p’rá minha mãe e outro p’rá minha tia. Qu’é p’ra porem atrás da porta e trocarem pelos velhos qu’inda lá tão!

‑ A gente já na tem nenhum. – Lamentou o João. ‑ Nã sê que jêtes, mas a minha avó queimou-o pr’á Santa Bárbara quando vieram as travoadas.

‑ Atão já sabem, amanhã na hora do almoço…


sexta-feira, abril 07, 2017

DIÁSPORA

Patrícios "Alzurenses" têm vindo a reunir-se na Margem Esquerda (do Tejo), maioritariamente na Associação Nacional de Fuzileiros, no Barreiro.
Ontem teve lugar mais uma dessas reuniões que juntou, à mesa, 22 convivas, tendo 5 dos presentes se deslocado directamente de Aljezur para participarem no evento.
Pela primeira vez teve uma presença feminina: a Celeste Pacheco rompeu a timidez e iniciou a participação das senhoras.

O encontro vai-se repetir em Junho, no dia 14, no mesmo local.

Como convém inscreverem-se, por razões meramente logísticas, poderão fazê-lo junto dos aljezurenses Manuel F. Conceição (96 610 53 99) ou Carlos Martins Nascimento (91 543 00 07).





quinta-feira, agosto 18, 2016

Ainda sobre o uso da Língua Portuguesa

Muito se queixaram os algarvios quando, há uns anos atrás, se praticava com grande exagero o uso do inglês nos diversos estabelecimentos hoteleiros da nossa faixa. Finalmente neste ramo perceberam que uma considerável parcela da sua clientela pertencia aos veraneantes internos, falando "bom" português, e readaptaram-se, acho eu; sei lá!

Mas sobreveio o uso (e abuso) de terminologia anglo-saxónica, agora feita moda!

Até a nossa Câmara se rendeu!
Veja-se o cartaz dos festejos do Feriado Municipal em:

http://www.cm-aljezur.pt/pt/noticias/1401/aljezur-comemora-mais-um-feriado-municipal.aspx

- É o Dress Code, estúpido! - digo de mim para mim - O Código da Vestimenta!
- Branco!?
- É o código das cores, logo o código da cor branca. - Explico que é o RGB, ou seja, Vermelho, Verde e Azul, código de "construção de cores" - Vais de 255, 255, 255, ou em hexadecimal, FF,FF,FF!
- Ca ganda confusão, meu!!! Vou escolher um camiseta FF, tamanho XL (outro código)!
- Se te dissessem "Vai de Branco" não tinha a mesma piada, além de que toda a gente iria perceber. Mas dress code é qualquer coisa que só os iniciados percebem, assim se distinguem...

Pois é, se fosse em português, ou em algraviês, tudo se perceberia melhor... democraticamente.

Já o outro senhor, o dos Porcos, dizia que "alguns são mais iguais que outros"...

terça-feira, agosto 09, 2016

PORTUGUÊSmente

Falar português ou estrangeirês? Português, empresariês, farmaticês.

Há muitos, muitos anos, que leio bulas de medicamentos. O que lá procuro? Pois por dentro dessa linguagem tão específica, aprendi a distinguir a Posologia, os Efeitos Secundários e pouco mais. Estes folhetos têm melhorado muito ao longo do tempo, adoptando, pelo menos nestes parágrafos, uma linguagem mais comum, mais facilmente entendível.

Mas e a imprensa?! Exige à partida uma familiarização com diversas terminologias, igualmente específicas, em textos obviamente destinados a diversas categorias de leitores, mas nem por isso afastam os leitores mais vulgares.
O Português é uma língua riquíssima, dispõe da palavra certa para cada situação, mas a moda de importar termos quase sempre de origem anglo-saxónica, é levada a um exagero insuportável. E então na área das tecnologias até já levou que os amigos brasileiros introduzissem o termo mídia, na ânsia de assumirem as sugestões da mal-pronunciada media (em inglês).

Seguem alguns exemplos, extraídos apenas de um exemplar de um conhecido e conceituado semanário da nossa praça jornalística. Tão somente num artigo do seu suplemento de Emprego extraímos as seguintes frases… assim como estão, sem (necessidade de) contextualização:
<<
…possivelmente a aproximarmo-nos de um esgotamento ou, como se diz agora, de um burnout!...
…conhecimento de Supply Chain e do modelo Lean Manufacturing, visão integrada de negócio (com todos os stakeholders).
A empresa Xyz é uma startup avaliada em mais de mil milhões de euros.
…formar jovens talentos que integrarão o Plug-In, o primeiro programa de trainees.
A senhora lidera uma equipa que prefere lhe chamem a “People Team”.
…e há uma equipa que se dedica em exclusivo a potenciar o bem-estar e motivação e que se designa “Make it Happen Team”.
…as vagas estão abertas para “Senior .Net Developers”, “DBA’s” “Performance”.
…diferentes perfis Software Testers”, “QA Automation”, ”Dev/Ops”, “Performance Engeneers”, “Release Engeneers”, “Scrum Masters”, “Product Owners”, “UX”, “Digital Designers, e ainda, “People Business Partners, Talent Acquisition Specialists”, “Account Managers”, “Customer Services Agents”, fluente em línguas (?) Operations e Finance.
Os seleccionados devem especializar-se em áreas como Quality Assurance Automation, UI Development e .Net Development.
…o programa cumpre um plano de formação comportamental (soft skills) e formação on-job complementar.
>>
<<
No mesmo suplemento, mas num outro texto sobre Seguros vem dizendo:
Tornar as estruturas mais leves no que concerne aos workflows internos…;
…o sector tem mais funções de new business ou business development…;
…apostar mais em profissionais focados em employee benefits.
>>

Hábito ou presunção?
Para já não falar na restauração. Desapareceu a profissão de cozinheiro e agora todos são chef, sem o e final, para não se confundir com qualquer designação hierárquica.
E até várias associações e empresas neófitas se constituem com nomes em inglês, mais sonantes, sobretudo quando se referindo às suas áreas de actividade. Como se a língua portuguesas não dispusesse dos vocábulos adequados ou, se os usassem, corressem o risco de não virem a ser compreendidos.

Então porquê as lamentações de que o ensino do português em países doutras expressões está a perder o interesse? Se no próprio país a sua utilização é “com toda a propriedade e facilidade” ultrapassada pelos termos da moda.

segunda-feira, setembro 14, 2015

Estórias Barlaventinas e outras

Finalmente!

Deu à costa o livrinho "Estórias Barlaventinas e outras" da autoria do nosso colaborador blogueiro Carlos Ene, relatando memórias da sua meninice e adolescência em Aljezur, no terceiro quartel do século passado.

Algumas já por aqui andaram e pelo Jornal Algarzur, embora em formato um pouco abreviado por mor do espaço, sempre, e assinadas pelo pseudónimo internético/jornalístico de Xico Vic, estão agora à disposição em versão inteiriça.

Os aljezurenses mais "vividos" reconhecerão os sítios e os costumes e, eventualmente, alguns dos protagonistas.

As Outras estórias que completam a edição são relatos da ruralidade do Sotavento alentejano.

É uma edição simples e despretensiosa pela Sinapsis Editores que pode ser solicitada ao autor para os mails carlos.ene@gmx.com ou xicovic@gmail.com. O custo são uns simbólicos €7,50 (portes incluídos).


sexta-feira, setembro 11, 2015

A Homenagem: "SEMPRE PRESENTES!"

Conforme anunciado, realizou-se em 29 de Agosto de 2015, junto ao edifício da Câmara Municipal de Aljezur, o destapamento do Monumento que homenageia, finalmente, os aljezurenses que morreram em combate nas Guerras que tiveram lugar nos territórios da Índia, Angola, Guiné e Moçambique.

A cerimónia reuniu em Aljezur altas individualidades militares e civis, nacionais e regionais, familiares dos mortos e ainda numerosa assistência.

Os homenageados foram chamados e a assistência respondeu "Presente!" por cada um deles, e a sua memória será assim preservada, na pedra, com a dignidade que lhes é devida.

A aterragem de três para-quedistas de excelência, transportando as bandeiras da Liga dos Combatentes, do Concelho e Nacional, encerraram as cerimónias.

A iniciativa foi do Núcleo da Lagoa/Portimão da Liga dos Combatentes que, desta forma, se substitui ao Estado na homenagem aos seus mortos.

O Castelo, ex libris da Vila, recebeu finalmente a Bandeira Nacional, dando-lhe o devido destaque e visibilidade.


A Guarda de Honra e, ao fundo, o Monumento ainda tapado.


O destapamento


O Monumento


segunda-feira, julho 13, 2015

HOMENAGEM AOS MORTOS NA GUERRA DO ULTRAMAR do Concelho de ALJEZUR

na manhã do dia 29 de Agosto, Feriado Municipal



Conterrâneos e Amigos de Aljezur:

Em Homenagem aos naturais de Aljezur que morreram na Guerra do Ultramar, a Câmara Municipal, a Liga dos Combatentes (Núcleo de Lagoa/Portimão), a Associação de Defesa do Património e a Comissão de Honra constituída para o efeito, vão inaugurar um Monumento Evocativo, erigido no espaço contíguo ao edifício da Câmara Municipal.

A Cerimónia terá início pelas 11:00 horas e, para além de várias individualidades civis, contará com a presença de entidades militares nacionais e regionais em representação dos três ramos das Forças Armadas, incluindo Guarda de Honra e lançamento de paraquedistas.

Face à importância e dignidade da cerimónia assim como à sua originalidade, apela-se à comparência e participação de todos os conterrâneos e amigos de Aljezur.

sexta-feira, maio 08, 2015

Retratinhos "Alaminuta"

Há uns dias que ando a dar voltas às caixinhas dos retratos legadas por vários familiares que já partiram.

Não sendo muito antiga, mas ainda assim a cumprir os 47 anos, veio à tona esta fotografia. Até podia ser uma competição, mas não. Ao que me constou, este grupo da velha guarda decidiu apenas fazer uma caldeirada. É claro que, das duas uma, ou pescavam para o repasto, ou levavam o pescado já preparado. Não havendo meios-frio para a conservação, nem telemóveis para minorar as faltas, a auto-confiança fez jus e foi uma bela duma caldeirada. Os garrafões do belo rosado da região, já estavam enterrados na areia, para refrescar naturalmente.

O sítio que garantia a pescaria é a Praia da Pipa.

Então vejam lá se os conhecem. Falham-me alguns, pelo que apreciarei a ajuda.