sexta-feira, maio 07, 2021

INUTILÂNDIA Terra dos saberes inúteis (ou menos úteis)


III – Para que serve o inútil?

                                                                                                    por Carlos eNe 

·         “Mestre João Explica…” in Condor Popular

 

Sim, para que serve?

Quem é que pode decidir se um certo saber constitui um conhecimento inútil? Depois dos Gautiers deste mundo afirmarem que “aquilo que é útil para um, pode não o ser para o outro”, muita presunção será necessária para alguém se arvorar em definidor da utilidade dos saberes.

O inútil face à curiosidade.

Na minha juventude éramos altamente consumidores de revistinhas de banda desenha, designação que só mais tarde entrou no nosso léxico pois, para nós, eram simplesmente aventuras aos quadradinhos, apesar de a Geometria nos ter feito estranhar a designação já que os desenhos nem sempre estavam em quadrados. Eram o “Mosquito”, o “Condor Popular”, o “Mundo de Aventuras”, o “Cavaleiro Andante” e muitos outros que, para além das histórias que contavam, completas ou à suivre (em continuação), incluíam uma pequena secção de curiosidades; a do Condor chamava-se “Mestre João Ensina…” ou “Mestre João Explica…”. Nessas tiras, em pequenos textos ilustrados ou, no máximo uma página, aprendíamos muitas situações do quotidiano, do nosso ou do americano(!), assuntos que por


falta da televisão na altura, ou porque os livros da carrinha da Gulbenkian eram mais difíceis de digerir, não tínhamos (à mão) onde ir beber conhecimentos desse tipo. Salpicos de conhecimentos que perduram na nossa mente. Eram conhecimentos úteis? Alguns mais do que outros, aqui não se pode generalizar, pois os interesses são tão diferenciados…

Quizzes

Há pessoas que rejubilam com os concursos televisivos de pergunta-resposta (quizzes), competindo com os concorrentes no seu sofá. Sabem sempre tudo(!), desde as bandeiras de (quase) todos os países, às respectivas capitais e, em casos mais rebuscados, até sabem o fuso horário e as horas da preia-mar (nos casos em que têm mar)! Serão uns autênticos sabichões? Cultos? É a tal cultura de Almanaque, adquirida em sucessivas leituras nas rubricas de “Sabia que…” ou “Aconteceu em…”

 

Mas ainda assim há pessoas que dedicam imenso tempo a coleccionar esse tipo de informação, estranha, e que na primeira oportunidade debitam esses temas numa atitude exibicionista, em que o seu ego transborda para um círculo que eles vão alimentando.

— As coisas que eu sei!

— Shi, as coisas que ele sabe!!!

Um amigo tem vindo há mais de vinte anos a compilar definições e desenvolvimentos sobre os mais estranhos temas e fez questão de partilhá-los comigo. Tal como ele, a sua informação está extraordinariamente organizada, sistematizada por grandes temas. É uma autêntica viagem pela Inutilandia, a terra onde se passam os grandes fenómenos, tipo Entroncamento, ou onde pulula o conhecimento verdadeiramente inútil.

Na próxima edição publicarei alguns itens desta compilação deixando a cada um dos leitores a eleição sobre a sua (in)utilidade.

Para vos deixar com um pouco de curiosidade, sabem que as formigas nunca dormem? Ou quantas toneladas de sardinha foram consumidas em Portugal no ano 2015?

(Continua…)

INUTILÂNDIA Terra dos saberes inúteis (ou menos úteis)

 IV – Cultivar um certo conhecimento!

por Carl Ene

 

·         “Um fóssil é um animal extinto. Quanto mais velho, mais extinto está.”

Um aluno da Primária num teste de Ciências.

 

Para terminar esta (primeira) viagem à Inutilândia, e como prometido, apresento uma série de exemplos desse conhecimento pelo qual só alguns se interessam, e muitas vezes com que interesse!... Para o efeito socorri-me da obra “A Shite History of Nearly Everything” de Parody, cujo título em português bem poderia ser “Uma História de Merda Sobre Quase Tudo”, e que constitui considerável compilação sobre o tema.

Fósseis

O fóssil mais antigo que se conhece é de um organismo unicelular e tem três mil e duzentos milhões de anos.

Conhecem-se fósseis multicelulares de há 700 milhões de anos.

Em Marrocos foram encontrados fósseis de baratas-do-mar (bichinho com um máximo de 2 milímetros de comprimento) com 480 milhões de anos.

Bicharada

Supõe-se que existam entre 5 a 30 milhões de espécies de insectos, mas apenas um milhão estão catalogadas.

Vivem mais insectos num quilómetro quadrado de campo do que habitantes em todo o planeta.

Todos os anos os insectos comem um terço das plantações da Terra.

As moscas vulgares podem ser os animais mais perigosos do planeta pela quantidade de doenças que podem transmitir, geralmente pelas patas e/ou pelo aparelho bocal.

Lagartos terríveis

O termo dinossauro, que significa lagarto terrível (embora não fossem répteis), foi atribuído pelo paleontólogo Richard Owen em 1841.

Ninguém sabe o verdadeiro aspecto dos dinossauros porque nunca se descobriu nenhum esqueleto com carne! As reconstruções derivam de estudos de vários cientistas que muito discordam entre si. As ossadas, por completas que sejam, não ultrapassam os 40% do animal. Não conseguem ainda ter noção das cores da pele nem os vestígios permitem distinguir se é macho ou fêmea!

 

A reconstrução esquelética já tem dado alguns erros. Ao Brontossauro, que nunca existiu, foi atribuída a cabeçorra do seu primo-irmão Apatossauro!

O dinossauro mais antigo que se conhece é o Eoraptor, que pode ter vivido há cerca de 228 milhões de anos, numa região a noroeste da Argentina.

O Tiranossauro Rex foi um dos últimos a desaparecer.

Entre o desaparecimento dos dinossauros e o aparecimento do primeiro humano, terá havido um hiato de cerca de 62 milhões de anos.

Dentes

Na batalha de Waterloo, em 1815, as tropas de Wellington derrotaram o exército de Napoleão. No campo de batalha ficaram cerca de 50.000 mortos. Os saqueadores de cadáveres avançaram então para recolher quaisquer objectos de valor e, sobretudo, os seus dentes, que eram posteriormente vendidos para a construção de dentaduras. Eram conhecidos como os Dentes de Waterloo.

Os egípcios podem ter sido os primeiros a usar um dentífrico, uma mistura de sal, pimenta, hortelã e flores silvestres, no século IV d. C.

Livros

A primeira história que foi escrita (cerca de 2000 a.C. na Suméria) foi o Épico de Gilgamesh, que fora governador da Cidade de Uruk, e passou a ser o primeiro herói da literatura.

O Almagest de Ptolomeu foi o livro científico mais conceituado durante 1500 anos.

Abdul Kassem Ismael, grão-vizir da Pérsia no século X, viajava sempre com a sua biblioteca de 117.000 volumes que transportava em 400 camelos, treinados para se manterem por ordem alfabética.

De facto

Disse Albert Einstein: “Se os factos não se coadunam com a teoria, mude os factos”.

 

D’abalada

E como dissemos no início deste texto (mais uma inutilidade, pois já o dissemos) por aqui nos ficamos nesta primeira viagem até à Inutilândia.

 

Praia de Buarcos

                                                                                                                                             Finais de 2020 

INUTILÂNDIA Terra dos saberes inúteis (ou menos úteis)

 II – O supérfluo versus o inútil

por Carlos eNe

·         “Aquilo que é útil é feio”. [Théophile Gautier]

·         “Para que te servirá aprenderes essa ária na flauta? — perguntaram ao filósofo Sócrates que, impassível, respondeu: — Para saber esta ária antes de morrer.”

 

A utilidade.

Gautier expõe que um Dicionário de Rimas pouca utilidade teria para um sapateiro, do mesmo modo que as ferramentas do segundo pouca ou nenhuma utilidade teriam para a composição de uma ode, donde “aquilo que é útil para um, pode não o ser para o outro”.

A utilidade do belo.

O escritor francês Victor Hugo discorreu sobre a “utilidade do belo” para transformar o real. Falando do belo, Roger Scruton, no seu livro Beauty afirma que “a utilidade do belo transcende a teoria da utilização. A beleza das coisas transpõe o olhar utilitário da vida”. [http://arrazoar.blogspot.com/]

A utilidade do inútil.

“Vejam como as pessoas correm atarefadas pelas ruas. Não olham para a direita nem para a esquerda, preocupadas, de olhos fixos no chão, como cães. (…) Em todas as grandes cidades do mundo, é assim que acontece. O homem moderno, universal, é o homem atarefado, que não tem tempo, que é escravo da necessidade, que não compreende que uma coisa possa não ser útil; que não compreende sequer que, na realidade, o útil pode ser um peso inútil, opressivo. Se não se compreende a utilidade do inútil e a inutilidade do útil, não se compreende a arte.” [Ionesco citado por Ordine].

Porquê ler os clássicos?

“(…) Os clássicos não se lêem porque hão-de servir para qualquer coisa. Lêem-se simplesmente pela alegria de os ler, pelo prazer de viajar com eles, animados apenas pelo desejo de conhecer e de nos conhecermos, quem somos e até onde chegámos.” [Italo Calvino citado por Ordine].

E ainda, porquê aprender as línguas antigas?

Já foram consideradas “aprendizagem necessária à formação de um gentleman” [John Loke citado por Ordine]. Antonio Gramsci [citado por Ordine] nos seus Cadernos do Cárcere, dizia que “não se aprende o latim e o grego com a intenção de os falar para exercer funções de empregado de mesa, de intérprete ou de correspondente comercial, mas sim para conhecer directamente a civilização desses dois povos, pressuposto necessário da civilização moderna”.

Nem sempre o indivíduo tem liberdade suficiente para aceder ao estudo daquilo que, para ele, é considerado útil. Algumas universidades, agora “universidades-empresas” que tratam a população discente como “alunos-clientes”, preparam, entre outras soluções, a sua oferta educativa em função da previsível utilidade dos cursos, nomeadamente com a promessa de rápida empregabilidade.

Os estados modernos praticam na generalidade cortes nos orçamentos da cultura, o que implica a tal redução da oferta educativa nas áreas humanísticas, situação que já Victor Hugo, em 1848, criticava alegando que “a poupança orçamental seria ridícula para o Estado e letal para a vida das bibliotecas, museus, arquivos nacionais, conservatórios, escolas e tantas outras instituições importantes” [Hugo citado por Ordine].

Acrescentando ao anterior que, mesmo nas universidades que ainda mantêm ofertas de cursos humanísticos, têm vindo a ser retiradas algumas disciplinas. Cada vez é menor o número de alunos que se inscrevem em Latim, Grego, Filologia ou Paleografia. Rareiam os alunos e rareiam os professores que, ao mesmo tempo se tornam cada vez mais dispendiosos, o que conduz a uma rápida extinção dessa oferta. Gradualmente se vão perdendo os especialistas naquelas áreas.

E nós (ou vós)?

Que posição tomamos relativamente a esta questão do útil e do inútil, ou do menos útil? O matemático dispensará o conhecimento do Grego, apesar de ser um (grande) utilizador do alfabeto grego nas suas expressões; o pi, o sigma e o teta enchem-lhe o quotidiano. E, na verdade, compreende e usa o “cálculo” mesmo sem ter a consciência de que se trata dum substantivo comum concreto/abstracto masculino do singular.

Bibliografia:

Nuccio Ordine, A Utilidade do Inútil, Manifesto, Matosinhos, Faktoria de Livros, 2019

Praia de Buarcos

Finais de 2020

 


INUTILÂNDIA Terra dos saberes inúteis (ou menos úteis)

 I – De que vale tudo isto…

por Carlos eNe

“De que vale tudo isso,

Se você não está aqui?”

 

Coisas do Rei, um rei a quem eu, apesar de republicano, e mesmo depois de muitas mudanças de gostos, dedico grande admiração. Um dos grandes inspiradores da minha juventude e do pessoal do meu tempo. Sabíamos tudo sobre o Roberto Carlos, seguíamos as suas edições por todas as estações de rádio, e os seus 45 rotações acalentavam os nossos encontros de garagem, os assaltos.

Sabíamos tudo sobre ele, mais naquele tempo do que agora… “O calhambeque, pi, pi”, “A namoradinha dum amigo meu”, e por aí.

Nessa altura a Matemática e a Física não beneficiavam de tanta atenção como os sucessos do Rei. E as Humanísticas muito menos. Tanta gramática, tanto Garcia de Resende, tanto Frei Luís de Sousa e tanta Castro, tantas Forças e Movimentos, tantos senos e cosenos, mas o Rei, o Rei é que mobilizava a nossa vontade de saber, embora não pudéssemos ignorar a necessidade de ter notas positivas naquelas matérias, pois era necessário garantir a passagem de ano.

Desta forma íamos enchendo a nossa mochila do conhecimento com, por um lado os saberes obrigatórios e, por outro lado os facultativos, mas que geravam muita mais competição. Os nossos ídolos.

E muito espaço há nessa mochila do conhecimento para albergar tanto saber, uma capacidade cujo limite ainda ninguém conheceu. Habitualmente não fazemos distinção entre o conhecimento útil, para guardar, e deixar de fora outros saberes, menos úteis, por uma questão de poupança de espaço.

O saber não ocupa lugar. (Popular)

Aprender é a única coisa de que a mente nunca se cansa, nunca tem medo e nunca se arrepende. (Leonardo Da Vinci).

Na juventude aprendíamos tudo o que nos quisessem ensinar. Lidávamos com conceitos que mal entendíamos mas que ainda assim ficámos a saber, geralmente decorando. Aprendíamos que há palavras que são substantivos (e decorávamos que eram palavras que designam pessoas, coisas ou animais, acções qualidades ou estados); estes mais tarde passaram a nomes (palavras com que designamos ou nomeamos algo, ou alguém) e, depois passaram ainda a sintagmas nominais. Isto dificulta o entendimento entre diferentes gerações: nem os avós sabem o que é um sintagma, nem um jovem actual sabe o que é um substantivo comum, concreto ou abstracto. Apesar de “no meu tempo é que era…”

Mas ainda assim, “de que vale tudo isso…?”

Decorávamos a rede ferroviária. De que vale saber o ramal de Trofa a Fafe, indicá-lo no mapa sem perceber que Trofafafe, afinal, é apenas um palavrão resultante da junção das duas, agora cidades, que liga.

Orgulhámo-nos destes saberes, que decorávamos até à exaustão, para repetir de enfiada, todas as sílabas, sem tropeções. E os reis da segunda dinastia! E os cognomes dos reis? Porque é que o D. Sebastião era o Desejado (e não o Adormecido)?

O saber não ocupa lugar, mesmo que seja um saber de pouca utilidade, um saber inútil! No tempo da especialização, muitos dos conteúdos a que fomos sujeitos revelaram-se praticamente inúteis para a vida que viemos a viver. Mas subsiste a vontade de saber, de procurar o como e o porquê. A curiosidade e a imaginação foram os motores que levaram Einstein a formular a teoria da relatividade, em 1905, e que só muitos anos mais tarde viria a ser aplicada. Teria sido um conhecimento inútil, até então?! O mesmo aconteceu com outros descobridores/inventores cujas descobertas não tinham como objectivo resolver nenhum problema concreto, mas sim o tentar compreender a Natureza e os seus fenómenos. Foi o caso de Marconi, Maxwell, Edison, Hertz, Galileu, Newton e muitos outros.

Algumas das grandes descobertas terão sido, assim, um conhecimento inútil, até virem a ser exploradas e aproveitadas.

Desde que não seja errado, o conhecimento, mesmo o menos útil, há-de ocupar uma posição nos alicerces ou nas paredes-mestras do saber que vamos construindo ao longo da vida. É claro que fizemos a devida selecção, pois efectivamente de pouco terá servido para a Investigação Operacional saber o cognome do D. Sebastião.

Neste mundo da especialização, a construção de um saber objectivo é constituído pêlos blocos de pedra que vamos escolhendo como suporte. Descartei o D. Sebastião, mas mantive as Operações Aritméticas, que vinham da mesma altura. Seleccionei aqueles saberes que considerei úteis, deixando os menos úteis (inúteis), arrumados na prateleira antecâmara do esquecimento, onde (não) ocupam lugar… mas têm lá o seu lugar.

Praia de Buarcos

Finais de 2020


6. ALJEZUR NA GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA EM 1936

 

por CarlNasc




Já em 1936 a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira dá uma informação muito mais completa do que o Guia de Portugal, nove anos antes, e inclui um mapa do concelho e até uma fotografia panorâmica da vila, tirada da estrada na proximidade da Quinta de S. Sebastião (Casa Cintra).

Começa com uma descrição administrativa, com o número de habitantes (6.661 no total, sendo 4.424 na vila), e passa às características geográfico-histórico-turístico-paisagísticas. Aí refere três magníficas praias: “a do Monte Clérigo, notável pelos variados e imponentes recortes da costa, especialmente a Ponta da Rocha e o Penduradoiro; a da Pipa, praia pequena mas onde abunda água potável, aconselhada para doentes do estômago; e a da Arrifana, em cuja baía, de grande beleza, se encontra a Pedra da Agulha, rochedo limado pelo mar que lembra o objecto de que tirou o nome”.

Refere a tentativa do bispo do Algarve D. Francisco Gomes de Avelar de obstar à insalubridade da vila, pretendendo mudá-la para um sítio “mais arejado”, e que mandou construir (às suas custas) uma igreja e algumas casas para o padre, sacristão e outros ajudas.

Os elementos históricos descritos são os habituais, e que ainda se mantêm sem contestação: a fundação árabe, a conquista por D. Paio Peres Correia na madrugada de 24 de Junho de 1246, a ruína do castelo pelo terramoto de 1755, e os forais de D. Dinis e de D. Manuel.

Curiosamente, informa da existência de três minas de cobre na freguesia mãe, uma no Cerro do Rossio, outra no Cerro da Amendoeirinha e outra ainda no Cerro do Penedo.

Sobre a etimologia de Aljezur, evoca o Prof. David Lopes que defende “derivar da palavra árabe Aljçur, plural de Aljiçr que significa Alcântara, a ponte”, referindo também os registos em documentos oficiais de 1267, onde consta a forma Aliaçur, e noutros de 1272, as formas de Aliazur, dando Aljezur.

O texto desta enciclopédia termina com a descrição heráldica das armas, da bandeira e do selo, conforme o parecer da Secção de Heráldica da Associação dos Arqueólogos Portugueses e está definido na portaria nº 8.362 de 17 de Fevereiro de 1936.

É curioso o artigo indicar na Bibliografia o Guia de Portugal de Raúl Proença 1936 que referimos no nosso anterior texto.

A mesma Enciclopédia, numa nova entrada do mesmo termo, oferece-nos esta curiosidade nobiliárquica:

1º Visconde de Aljezur, Francisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho, nasceu no Brasil em 1820, e desposou a senhora D. Maria Rita de Noronha. O rei D. Pedro V concedeu à dita senhora o título de 1ª Viscondessa de Aljezur em 1858 e autorizou o seu marido a usar o referido título. Este título e autorização foram confirmados no Brasil por sua Majestade Imperial. O casal não teve descendência e o título deixou de ser referenciado.

 

FEV2021 por CarlNasc

4 PÃO INCERTO

                                                                                                                                         por CarlNasc


Natural de Faro, António Assis Esperança, (27/03/1892 a 3/3/1975) foi um escritor e jornalista português, autor duma dezena de romances. Foi colaborador da Seara Nova, um dos fundadores da Sociedade Contemporânea de Autores, e pertenceu à primeira direcção da Sociedade Portuguesa de Escritores (ambas encerradas pelo Estado Novo).

A sua obra consiste numa escrita de intervenção social, podendo até apresentar uma marca ideológica que a aproxima do movimento neo-realista, neste romance focada sobretudo nas condições de vida dos camponeses e no papel da mulher na sociedade, e neste caso, em diversos estratos sociais.

Hoje é uma figura praticamente esquecida, com fraca representação em bibliotecas públicas, e as suas obras há muito que desapareceram das livrarias. Alguns municípios do Algarve incluíram o seu nome nas respectivas toponímias, inclusivamente Aljezur, na Igreja Nova.

Em homenagem a Aljezur e ao seu povo, Assis Esperança escreveu um belo romance sobre a pobre vida dos agricultores e das suas famílias, e a sua luta pela melhoria das condições de vida. O habitual confronto de gerações em que os mais novos, sobretudo se mulheres fossem, se afirmam pela diferença, desejando a emancipação, enfrentando os costumes antigos que as subordinam, ao mesmo tempo que procuram o par que esperam lhes traga uma vida nova e a independência dos progenitores.

Personagens principais:

Maria da Graça, moça casadoira, reside com o pai a quem ajuda nalgumas tarefas do trabalho do campo, mas sobretudo trata da casa e da criação; namora com António contra a vontade do pai que o recebeu a tiro de caçadeira e lhe declarou que “A minha filha não é para os teus dentes.” Maria da Graça percebe muito bem a sua situação “Tudo e todos entregues à Divina Providência, como enxergar o meu futuro? Nem casa, nem terras, toda a vida na serra?” Encara o namoro com António como a possibilidade de sair da serra e deixar o trabalho que a faz considerar-se escrava do pai. Maria da Graça e António, mais do que prometidos, são amantes e mantêm encontros secretos.

António deixou o trabalho de criado de lavoura para ir trabalhar na recém-aberta mina de ilmenite, óxido de ferro e titânio neste caso extraído dos areais, mas cujo futuro é ainda incerto dependendo a empresa da riqueza do filão, ainda em análise. Acaba por fechar e António fica de novo com o futuro comprometido, não conseguindo a aceitação do pai da sua namorada.

Francisco da Várzea é o pai de Maria da Graça. Lavrador esforçado, que pensa que a riqueza provém sobretudo da terra e do respectivo trabalho com afinco; porém o produto mal dá para o pagamento das rendas.

Manuel da Eira é o manajeiro, o homem que, por delegação do proprietário da Herdade de Montedor, no Alentejo, efectua a escolha e a contratação de um rancho (maioritariamente feminino), para executarem os trabalhos nos arrozais da Comporta e arredores, desde o plantio, à monda e à ceifa.

Ambiente:

Uma primeira parte deste romance tem lugar em Aljezur, basicamente na vila e no lugarejo onde residem as personagens principais, o Monte da Boavista, vagamente localizado “lá p’rá serra”.

O autor recusa usar o nome verdadeiro da vila e inventa o nome diferente de Alfamar.

São apresentadas algumas famílias de agricultores, as suas dificuldades com o trabalho das terras, o uso habitual da mão-de-obra familiar, usando os braços dos filhos ainda jovens e, inclusivamente das raparigas. Ressalta da vivência de então o habitual confronto de gerações. No caso deste romance, Francisco da Várzea acha que o sustento advém da posse e do trabalho da terra, não se permitindo perder os braços da filha, que ao casar sairá da sua casa, sem que o facto traga qualquer contributo à sua estabilidade financeira, muito pelo contrário, levantava a questão do dote, como se com os pobres deixassem de casar por falta dele.

No Café da Chica os lavradores discutem e trocam informações, na véspera da feira anual, para melhor se posicionarem face aos marchantes que vêm de longe, até de Santarém, pela fama que o gado dos serranos tem. Mas os lavradores ainda se lamentam com as campanhas do trigo, e com a entrega ou não da colheita à Fundação, gentes que vivem do trabalho das terras alheias e que lidam ano após ano com o drama das colheitas que se perdem.

A feira marca o início do ano agrícola, mas não só. Lá se mercam os apetrechos para a actividade agrícola e que as lojas da vila geralmente não têm. Lá se fazem os negócios do gado, uns melhores e outros não, os compradores combinam-se numa espécie de cartel para não excederem valores previamente combinados. Lá se compram os bezerrinhos e os bácoros para a engorda.

O drama das famílias reflecte-se depois no apalavrar dos ranchos que hão-de ir para os lamaçais do arroz na Comporta. A contratação é feita pelos manajeiros que previamente tentam avaliar a situação de debilidade financeira das famílias serranas, para o aliciamento com o soldo sempre baixo, levando os lavradores a fazer contas antes de “atirarem as filhas para fora de casa”, pois “já apartaram as que Deus lhes deu”, que pouco contavam com o escasso rendimento das “ervas” do mar. O Manajeiro é como se fosse o dono do trabalho, o empregador, escolhe as moças mais jeitosas para o trabalho e algumas mais “dadas” por recomendação do patrão, indo procurá-las nas famílias mais aflitas, de conluio com os lojistas que lhes fiavam o sustento e que, melhor que ninguém conheciam as situações de carência.

“Ir p’ró Alentejo”, assim mesmo fazendo parte do léxico aljezurense, representava para muitas famílias a possibilidade de obterem algum dinheiro, com o qual contam para equilibrar o livro de fiados, comprar um vestido ou um par de botas. Para tal suportam o custo do afastamento, do deficiente e promíscuo alojamento nos barracões da herdade, da constituição de nova dívida na cantina, da sujeição ao assédio seja por parte dos manajeiros, feitores ou até mesmo dos trabalhadores da herdade, resistência que nem todas conseguiam aguentar sem sucumbirem.

Durante os vários meses da permanência dos ranchos no Alentejo, o autor vai desmontando as atitudes prepotentes quer dos patrões, quer dos seus homens de mão, na luta pelas oito horas de trabalho em substituição do horário de sol-a-sol.

No seu gabinete, o patrão inquire os trabalhadores, um a um: “— Quem foi o primeiro a lembrar-se de meter todos à bulha? Quero saber quem foi.”

Responde corajosamente cada um deles “— Fomos todos!”

Conversam eles, receosos: “— Com a mania da redução de despesas pensará dispensar alguns de nós? É só levar dinheiro para Lisboa!”

E elas, “debruçando-se para dentro das suas caixas vazias, como alguém procurando aquilo que não tem”, “a guardarem desde muito novas e do seu precoce diálogo com o silêncio, o sentido de vida que corresponde à passividade animal de fêmeas”.

 

Set2020 por CarlNasc

 

3 GENTE DA SERRA

 por CarlNasc

 

Gostaria de partilhar convosco mais um livro escrito por um aljezurense e que tem como cenário Aljezur. Mais um que parece estar esquecido nas gavetas da memória daqueles que o conheceram; acho que tem um natural interesse até para reviver costumes e situações que as gerações actuais nunca conheceram. Trata-se de Gente da Serra


de ELIAS NEMÉSIO, pseudónimo de Monsenhor Cónego Manuel Francisco Pardal.

Sendo natural de Aljezur e conhecendo bem os sítios e as suas gentes, foi quiçá fácil para o autor situar a acção no concelho, elegendo da população que bem conhecia as personagens que integram o romance. Publicado pelo autor em 1931, tem como subtítulo “Ensaio sôbre o casamento, emmoldurado em quadros rústicos” e é dedicado a sua mãe.

Aquando do centenário do nascimento do autor, em 1997, a Câmara Municipal publicou uma edição fac-simile, criando assim uma oportunidade para que as gerações mais recentes se familiarizassem com a obra.

Ao lermos não podemos deixar de identificar nesta ou naquela pessoa, neste ou naquele comportamento, indícios que reconhecemos e caracterizamos como aljezurenses. As vivências do dia-a-dia e dos dias de festa, a vida no campo, na agricultura e na criação de gado.

Os “bons”, tementes a Deus, pautam o seu comportamento e atitudes pela moral católica, supervisionada pelo Pe. Fabrício (que “idealizara uma freguesia, onde todos, à custa do seu apostolado, que Deus abençoaria, vivessem na graça do Senhor”); várias páginas do livro são inteiramente dedicadas à meditação do Pe. Fabrício e às suas conversas com as pessoas, sempre subordinadas aos ensinamentos e exemplos de Cristo. Compadre de muitos, era o confessor, o conselheiro, o pacificador de almas e o pai espiritual.

Os “menos bons”, recorrendo a práticas pouco recomendadas para lograrem os seus objectivos, como se nestas questões, e trata-se do jogo do amor (ou do interesse), tudo valesse.

Há momentos, na casa do lavrador José Afonso, que são uma autêntica extensão do púlpito, e da sacristia, mas também se gera uma pequena discussão onde são aflorados modernos problemas de igualdade de género, das reivindicações femininas de frequentarem o Liceu e até a Universidade e virem a desempenhar profissões fora do lar, confrontando-se as opiniões mais controversas.

O autor inclui na sua narrativa vários sítios que são outros tantos palcos da acção. O mais destacado é o Monte do Bemparece, onde reside a principal personagem feminina, Maria de Sousa, a Sousinha, com os seus pais, os lavradores: a senhora Armindinha e o senhor José Afonso; a Azenha, mais difícil de localizar, onde reside a família Labrusca, a senhora Francisquinha e Ti Labrusca e o filho Chico, namorado da Sousinha; o sítio do Brejo, da senhora Sebastiana e do seu filho José da Costa, o Zé Gordo, alfaiate aspirante a Regedor, o intriguista e pouco escrupuloso pretendente da Sousinha.

São ainda referidas localizações como o Degoladoiro, a Portelôa, a Portela Alta, as Cêrcas, o Camarate, a Corte-Sobreira, o Vale da Nora, o Rincão, o Moinho do Lucas, a Malhada Velha, o Cabeço de Águia, a Barrada e a Várzea, os Montes Galegos e razão do seu nome e da ligação à lenda das Sagradas Cabeças, o Carriçal, o Vale Palheiro, os Casais e Marmelete, e ainda a Carrapateira e o Rogil.

Sobressai ainda a Custódia Alamôa, uma pobre mendiga mas que é, simultaneamente, “uma grandíssima alcoviteira”, a quem o Chico recorre para armar um destrate entre a família do Chico e da Sousinha e poder aproveitar um eventual rompimento do namoro destes dois.

Frequentemente, e na verdade como era e ainda é habitual, são citados vários ditos e ditados, de que destaco os seguintes:


“Quem tem padrinho, não morre moiro.”

“Como a casa do Gonçalo, onde pode mais a galinha do que o galo.”

“Vale mais o corrido que o lido.”

“Pelos Domingos se tiram as Segundas.”

“O burro não embica duas vezes na mesma pedra.”


Para desfazerem na escolha de Fernando, irmão da Sousinha, por um moça serrenha, cantam-lhe quadras a escarnecer indirectamente a sua pretendida, a Isabelinha dos Casais:


As donzelas de Monchique,

São bonitas, mas sem dentes;

Porque bebem água fria,

E comem castanhas quentes.

O casamento das personagens principais decorre à “moda antiga”, sem carros, com festas nas casas das duas famílias ao longo de dois dias, com muita música e bailarico, ocasião para se cantarem quadras alusivas ao matrimónio, aproveitando o lavrador para uma espécie de baile mandado que, no século passado, se radicou no baixo Algarve, como se no barlavento não se praticasse:


A moda do puladinho,

Há muito que cá não vem.

Tudo certo, puladinho!

Acerta, acerta, meu bem.


Finalmente recolhem os noivos à casa onde irão residir pelo que “desabelhou toda a gente para ver o grande acompanhamento que vinha trazer os noivos à sua casa”.

Este texto de leitura agradável merece a atenção e um lugar na estante de todo o aljezurense.

Jun2020 por CarlNasc

2 ALJEZUR, TERRA MIMOSA

 por CarlNasc

 

Neste blog, “barlaventino.blogspot.com”, publiquei há cerca de dez anos referências a esta obra, e esse texto sairá agora estampado no Algarzur.

Trata-se de um livro inteiramente dedicado à nossa terra, editado em 1938, raríssimo mesmo entre os aljezurenses mais antigos. Aqui desafio a Câmara Municipal a localizar um exemplar e proceder a uma edição fac-simile, pois me parece disso ser a obra merecedora.




Muito falavam os mais antigos deste livro, inclusivamente nos serões na Casa Grande, que glorificava a nossa terra, coisa pouco vista, fosse na imprensa escrita ou, mais raramente ainda, na rádio telefonia; não se conheciam quaisquer outras referências nos ficheiros das Bertrands, Baratas ou Sás da Costa, das mais conhecidas na grande cidade.

Por mero acaso, há uns anos, nas inesquecíveis conversas com a Tia Zulmira na sua casa da Ladeira, mordiscando um figuinho seco ou chupando um torrão de açúcar, (quem a conheceu seguramente lhe reconhecia um grande orgulho na sua terra e um profundo conhecimento da história da vila, sobretudo da contemporânea), vem à baila o livrinho.

Eu tinha dele uma imagem geral, mas como há muito desaparecera da estante lá de casa, já mal me lembrava do seu aspecto e dos pormenores do seu conteúdo.

A tia Zulmira levantou-se e, após uma curta espera, regressou trazendo nas mãos um velho exemplar desta obra. Com um sorrisinho orgulhoso colocou o livro sobre a mesa, à minha frente, sublinhando o seu gesto com um “Querias vê-lo, aqui o tens!”

Fina brochura de 100 páginas que folheei apaixonadamente e com todo o cuidado, pois estava a desfazer-se, enquanto a tia Zulmira recitava, de cor, um dos hinos de louvor


“Aos Homens da minha terra”

 

“Aljezur, de fidalgas e nobres tradições,

Tem tido filhos dilectos bem ilustrados

Como os Sintras, os Marreiros, os Furtados,

Os Mendonças, os Correias e os Serrões.

 

E os Duartes, também nas suas funções.

Teem desempenhado bem os seus mandados

Pois todos se guiam p’los seus antepassados,

Homens impolutos de firmes convicções.

 

Os tempos são outros, outro é o caminho

Aos homens de Aljezur, porque o destino

Também vai caminhando p’ras realidades.

 

Lembrai-vos conterrâneos que chegou a hora

De vermos ressurgir uma nova aurora,

Ao nosso torrão natal, com prosperidades!”

 

clamando com o ênfase que a chave-d’ouro impunha, e soltando uma lagriminha de nostalgia pelos tempos em que ela o fizera nas récitas da sua juventude.

 

Louvados os “Homens da minha terra”, não fogem à louvação as moças que lhes dão voltas à cabeça:

 

“As Moças de Aljezur”

 

1

As moças da minha terra

São ladinas, são vivazes,

E até mesmo as da serra

Endoidecem os rapazes.

4

E lá no Degoladoiro

Ela é mais desconfiada,

Defeito esse que vem do moiro

E duma época passada.

2

As que moram nas Cabeças,

Lá nos seus alcantilados;

— Vê lá bem não entorpeças, —

Dizem os seus namorados.

5

Quando olham p’ra quem passa,

Oh! Que olhar tentador!

Teem infinita graça,

Naquele olhar sedutor.

3

E as do centro da vila

Teem um andar subtil,

E um sorriso que jubila

Como as manhãs d’Abril!

6

As moças da minha terra

São ladinas, são vivazes,

E até mesmo as da serra

Endoidecem os rapazes.

 

A citação deste livro deve-se sobretudo à demonstração de um grande orgulho aljezurense, que além das páginas iniciais em prosa, canta Aljezur em versos de forma e métrica várias; não desmerecendo naturalmente outros poetas mais recentes que a nossa terra têm representado, como Noémia França, Ernesto Silva, Carolina do Valle, Gertrudes Novais, Arselino e Fábio entre outros (que me perdoem as omissões), este “Aljezur, Terra Mimosa” foi/é uma marca importante na divulgação e promoção do nosso concelho, num estilo romântico e popular.

 

Nota: Algumas palavras mantêm a ortografia do livro.

Praia de Buarcos,

Setembro de 2020

1 Aljezur na literatura do século passado

por CarlNasc


Gostava de citar algumas obras literárias, do século passado, que se focam em Aljezur e que já se converteram em verdadeiros clássicos, embora pouco conhecidas e conhecidas de poucos, tendo os seus autores abandonado esta vida há vários anos.

Elejo aqui três dessas obras com que me familiarizei desde sempre, pois eram parte do nosso pequeno acervo literário:

·         “Gentes da Serra” de Elias Nemésio, pseudónimo do Mons. Cónego Manuel Francisco Pardal, publicado em 1931;

·         “Aljezur, Terra Mimosa” de Manuel Garcia, publicado em 1938;

·         “Pão Incerto” de Assis Esperança, publicado em 1964.

A primeira e a última são romances que reproduzem o ambiente e as vivências aljezurenses, nos anos que constituem o espaço temporal da trama. Aos seus autores é reconhecida a competência da expressão escrita, com publicações em vários jornais, sendo Assis Esperança já um escritor consagrado, com vários romances publicados. Quanto à segunda obra, é um hino ao concelho e às suas gentes (uma monografia regional, no dizer do seu autor), em verso e em prosa.

Com excepção do Monsenhor Cónego Pardal, a quem a Câmara Municipal prestou a devida homenagem em 1997, pela passagem do centenário do seu nascimento, não se conhecem quaisquer manifestações oficiais de divulgação de outras obras.

Quem sabe, ao voltar a falar-se destes livros, o pelouro da cultura da Câmara Municipal de Aljezur, ou até a ADPHAA, possam vir a interessar-se pela reedição de alguma delas. Aljezur, Terra Mimosa, há muito desaparecida dos escaparates, algum antigo patrício poderá dispor de um velho exemplar que possa ser objecto de edição fac-simile; já o Pão Incerto, esgotado desde os anos 60, com alguma insistência ainda se conseguirá adquirir no mercado dos alfarrabistas.

No próximo Algarzur, com o objectivo de melhorar a divulgação e talvez motivar os leitores para a sua procura e leitura, iniciarei um conjunto de três apontamentos sobre as obras aqui referidas.

Praia de Buarcos,

Setembro de 2020

sábado, agosto 19, 2017

O Marciano partiu...




Deixou-nos ontem, 18 de Agosto de 2017, o Aljezurense Marciano Martins da Silveira, a escassas semanas de cumprir os 93 anos.

Como muitos patrícios, deixou Aljezur muito jovem para seguir a Marinha, onde percorrendo a tarimba, atingiu o posto de 1º Tenente.

Na família dos Martins da Silveira ocupava o lugar de “o mais velho”, assumindo sempre a “função” de bem dispor toda a companhia.

Foi um homem íntegro, esposo, pai, avô, tio e primo dedicado. Era um homem de família. O repositório da nossa história.

Há tão pouco tempo que partiu e a saudade já é grande.

Que repouse em paz. Estará sempre nos nossos corações.

Até qualquer dia… meu tio, sempre como se fora meu pai.

sexta-feira, agosto 11, 2017

Memória da Quinta-feira de Ascensão



Mas afinal quando é a Quinta-feira da Espiga? A menina Guida já explicou na Doutrina que é 40 dias depois da Páscoa, comemorando a altura em Deus Nosso Senhor subiu aos Céus. Mas a menina Idalina, que dá a Doutrina ao grupo das mecinhas, disse que não são bem os 40 dias, mas sim catorze semanas a partir da Páscoa. A Senhora Marquinhas, que é quem manda na Doutrina, é que sabe. E ela diz que o que vem na Bíblia são os 40 dias.

­ - Ê cá na sê bem! O qu’ê sê é que amanhão vamos ó campo apanhar os raminhos de espigas.

Combinei com os amigos Carsalberto e João irmos dar a volta no intervalo do almoço da escola, qu’é quando tudo pára por causa de ser o “dia da hora”. Vamos começar pela Barrada com o trigo, donde se faz o pão, e as papoilas que estão no meio do trigo e são da cor do coração. Descemos à horta do Ti Saroidinho pr’ós raminhos de oliveira, para não faltar o azête. Junto à vala, na várzea, apanhamos os malmequerzinhos amarelos que, diz a minha tia, é p’ra não faltar o dinheiro. No mê quintal vamos apanhar as folhas da minha parrêra que, diz o mê pai, é p’ra não faltar o vinho.

‑ Atão e os bocadinhos de rasmono? – Intervém o Casalberto. ‑ Temos de dar um salto lá por trás, ao pé da Fonte das Mentiras ou no caminho do Vale Palhêro. Lá é que há, qu’ê sê! É por lá que o vão apanhar p’rá fogueira do Sant’António. Ouvi-os a combinarem.

‑ E se eles já o foram apanhar para pôr a secar ao pé do mastro? Se calhar podemos ir roubar uns bocadinhos, qu’é pr’ó ramo cheirar bem! – Era o João a querer poupar a caminhada.

‑ Tás mas é parvo! Levavas logo qu’era p’ra aprenderes!

‑ Quantos raminhos vão fazer? Ê cá preciso de dois: um p’rá minha mãe e outro p’rá minha tia. Qu’é p’ra porem atrás da porta e trocarem pelos velhos qu’inda lá tão!

‑ A gente já na tem nenhum. – Lamentou o João. ‑ Nã sê que jêtes, mas a minha avó queimou-o pr’á Santa Bárbara quando vieram as travoadas.

‑ Atão já sabem, amanhã na hora do almoço…