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domingo, março 04, 2012

Al-Mu'tamid

Oh! Que pena poeta não ser... Como hei-de superar esta incapacidade para pôr por escrito o que por dentro sinto? Não me ajudam as mãos nos gestos necessários, nem os vocabulários me apontam as palavras a usar...
Embora não sendo poeta, não é por isso que amo menos a poesia. Decidi pedir "emprestado" alguns versos que aqui continuo a partilhar convosco, passeantes deste espaço.

Trago hoje a memória daquele que, no entender de Adalberto Alves citando Nykl em "O Meu Coração É Árabe", foi o mais notável dos poetas hispano-árabes: Al-Mu'tamid, o rei-poeta que morreu traído e desterrado em Aghmat, Marrocos. Da sua obra, que inclui o seu próprio Epitáfio, aqui fica o registo dum dos poemas de amor, sem título:  
                            
                                 ó minha única eleita
de entre toda a humanidade:
estrela! lua a brilhar!
haste erguida e escorreita
gazelita no olhar.
da flor tu és o alento
és a brisa perfumada,
minha dona, meu sustento,
e grilheta bem-amada.
cego ficaria e surdo
para que fosses resgatada.
chama-me! eu logo acudo.
diz-me! será curada
a ardência do meu coração
com o fresco toque dos dentes
que na tua boca estão?

in
"O Meu Coração é Árabe" de Adalberto Alves

domingo, dezembro 05, 2010

Cantando espalharei...


           Que saudades

Que saudades… velha escola,
Da cartilha e sacola,
Reguadas da professora…
                Calcorrear os caminhos,
    Pés descalços sobre espinhos,
                Que saudades… desse outrora.

A algazarra do recreio,
O jogo da bola a meio,
Papo-seco sem conduto…
                Depois a correria,
                Ciências, geografia,
                Decoradas (cá p’lo puto).

Lembro o arco de vareta
E até a escravelheta
Piana em medronheiro…
                O berlinde abafador
                Transparente… multicolor,
                A rolar pelo terreiro.

Lembro o “pula na mula”,
Doçarias… “minha gula”,
E tantos galos na testa…
                Do carnaval… “malatracas”
                E o estoirar de canecas
                Em “caçadas”… (riso e festa).

Arselino Marreiros Correia
in O Rosto da Alma,1997

sexta-feira, novembro 19, 2010

Cantando espalharei...

               Minha Terra

Ó minha terra humilde, pequenina,
De casinhas trepando para o céu!
Foste, na vida, a luz do olhar meu,
E berço dos meus sonhos de menina.

Em cada pedra tua, em cada esquina,
No lindo campo ou mar que Deus te deu,
Paira a sombra daquela que fui eu,
E a tua saudade ora domina.

E é tal o silêncio, tal a calma,
Que junto a ti, oh! Terra da minh’alma,
As horas me parecem fugidias

E a minha própria mágoa desvanece.
Ai, minha velha amiga, quem pudesse,
Findar, junto de ti, meus breves dias!

Noémia França Brogueira

Cantando espalharei...


          ALJEZUR

Desde os Celtas e Romanos,
Aos Árabes e Cristãos,
Outros povos por ti passaram
E da sua civilização
Também muito nos legaram.



D. Dinis deu-te foral
Que D. Manuel I confirmou
De “Nobre e Honrada Vila”
Título com que te honrou.






 
Do castelo hoje se fala,
De lendas e de certezas
Pois também ele figura
Entre as quinas portuguesas.

De aspecto ainda simples
Foste outrora grande vila
Sendo nobre a paisagem
Que a teus pés se perfila.

É lindo o azul do mar
Contrastando com os rochedos,
Pintura que tento agarrar
E se me escapa entre os dedos.

Maria Gertrudes Novais
in Jeito de Ser, 1988