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sábado, agosto 19, 2017

O Marciano partiu...




Deixou-nos ontem, 18 de Agosto de 2017, o Aljezurense Marciano Martins da Silveira, a escassas semanas de cumprir os 93 anos.

Como muitos patrícios, deixou Aljezur muito jovem para seguir a Marinha, onde percorrendo a tarimba, atingiu o posto de 1º Tenente.

Na família dos Martins da Silveira ocupava o lugar de “o mais velho”, assumindo sempre a “função” de bem dispor toda a companhia.

Foi um homem íntegro, esposo, pai, avô, tio e primo dedicado. Era um homem de família. O repositório da nossa história.

Há tão pouco tempo que partiu e a saudade já é grande.

Que repouse em paz. Estará sempre nos nossos corações.

Até qualquer dia… meu tio, sempre como se fora meu pai.

sexta-feira, setembro 11, 2015

A Homenagem: "SEMPRE PRESENTES!"

Conforme anunciado, realizou-se em 29 de Agosto de 2015, junto ao edifício da Câmara Municipal de Aljezur, o destapamento do Monumento que homenageia, finalmente, os aljezurenses que morreram em combate nas Guerras que tiveram lugar nos territórios da Índia, Angola, Guiné e Moçambique.

A cerimónia reuniu em Aljezur altas individualidades militares e civis, nacionais e regionais, familiares dos mortos e ainda numerosa assistência.

Os homenageados foram chamados e a assistência respondeu "Presente!" por cada um deles, e a sua memória será assim preservada, na pedra, com a dignidade que lhes é devida.

A aterragem de três para-quedistas de excelência, transportando as bandeiras da Liga dos Combatentes, do Concelho e Nacional, encerraram as cerimónias.

A iniciativa foi do Núcleo da Lagoa/Portimão da Liga dos Combatentes que, desta forma, se substitui ao Estado na homenagem aos seus mortos.

O Castelo, ex libris da Vila, recebeu finalmente a Bandeira Nacional, dando-lhe o devido destaque e visibilidade.


A Guarda de Honra e, ao fundo, o Monumento ainda tapado.


O destapamento


O Monumento


segunda-feira, julho 13, 2015

HOMENAGEM AOS MORTOS NA GUERRA DO ULTRAMAR do Concelho de ALJEZUR

na manhã do dia 29 de Agosto, Feriado Municipal



Conterrâneos e Amigos de Aljezur:

Em Homenagem aos naturais de Aljezur que morreram na Guerra do Ultramar, a Câmara Municipal, a Liga dos Combatentes (Núcleo de Lagoa/Portimão), a Associação de Defesa do Património e a Comissão de Honra constituída para o efeito, vão inaugurar um Monumento Evocativo, erigido no espaço contíguo ao edifício da Câmara Municipal.

A Cerimónia terá início pelas 11:00 horas e, para além de várias individualidades civis, contará com a presença de entidades militares nacionais e regionais em representação dos três ramos das Forças Armadas, incluindo Guarda de Honra e lançamento de paraquedistas.

Face à importância e dignidade da cerimónia assim como à sua originalidade, apela-se à comparência e participação de todos os conterrâneos e amigos de Aljezur.

sexta-feira, maio 08, 2015

Retratinhos "Alaminuta"

Há uns dias que ando a dar voltas às caixinhas dos retratos legadas por vários familiares que já partiram.

Não sendo muito antiga, mas ainda assim a cumprir os 47 anos, veio à tona esta fotografia. Até podia ser uma competição, mas não. Ao que me constou, este grupo da velha guarda decidiu apenas fazer uma caldeirada. É claro que, das duas uma, ou pescavam para o repasto, ou levavam o pescado já preparado. Não havendo meios-frio para a conservação, nem telemóveis para minorar as faltas, a auto-confiança fez jus e foi uma bela duma caldeirada. Os garrafões do belo rosado da região, já estavam enterrados na areia, para refrescar naturalmente.

O sítio que garantia a pescaria é a Praia da Pipa.

Então vejam lá se os conhecem. Falham-me alguns, pelo que apreciarei a ajuda.


segunda-feira, dezembro 23, 2013

O Nosso Castelo na Bandeira Nacional


Desde sempre, nos círculos familiares, havia alguém que conhecia coisas e coisas e nos fascinava com tantas histórias, nos intermináveis serões das noites de inverno. Na minha família era a Tia. A Tia sabia de tudo, opinava sobre todos os temas que vinham à baila, fazia recomendações, sempre para levar a sério, e contava-nos histórias, muitas delas passavam para as noites seguintes, longas e complicadas que eram. Uma das vertentes que era frequentemente abordada era a da valentia dos portugueses, e particularmente dos aljezurenses, nas lutas travadas contra os Mouros e a integração do Reino dos Algarves nas posses de Sancho II e Afonso III e, consequentemente, no cognome deste. E aqui vinha sempre a explicação da Bandeira Nacional, enaltecendo que o Castelo de Aljezur era um dos sete que figuram naquele pendão, o que para nós nos enchia de orgulho patriótico e regional.
Esta minha Tia juntamente com tantas outras Tias contadoras de histórias a gerações de aljezurenses, foram assim responsáveis por termos crescido com este mito, alimentando-o e veiculando-o orgulhosamente aos nossos descendentes e divulgando-o junto da nossa rede de relações.

Uma obra literária muito interessante que já neste blogue divulgámos, “Aljezur, Terra Mimosa” de Manuel Garcia (1938) e que constitui motivo de orgulho para muitos aljezurenses (apesar da Senhora D. Câmara o continuar a ignorar esquecendo-se uma reedição) refere também esta situação (vide http://barlaventino.blogspot.pt/2011/04/o-brasao-de-aljezur.html).

Também em nosso modesto entender não passa de mais um mito, possivelmente motivado por um desejo de reivindicar importância para a nossa terra (e para as outras seis), cuja justificação histórica ainda jaz adormecida nalguma recôndita prateleira da Torre do Tombo.

Conta-se então que os sete castelos da Bandeira Nacional dizem respeito às últimas conquistas algarvias, e que foram Albufeira, Aljezur, Cacela, Castro Marim, Estômbar, Paderne e Sagres.
Nem sempre foram sete os castelos da Bandeira, tendo mesmo o painel de D. Afonso III 16 castelos em dois desenhos diferentes; como foi feita a sua selecção também não se sabe.

Aqui deixo alguns exemplos das armas nacionais ao longo dos tempos para melhor podermos apreciar essa evolução.

D. Afonso III - 16 castelos
D. Afonso III (diferente disposição, 12 castelos)

D. João I (ainda os 12 castelos)
D. João II (7 castelos)


D. Manuel II (8 castelos)

Bandeira Actual (7 castelos)
O nosso objectivo é apenas o levantar duma questão que subsiste sem resposta: trata-se apenas de um mito, histórico, ou nele está contida alguma verdade para além do simples desejo que assim fosse?

Fica a dúvida sobre o tema e fica também o desafio:

Desmitifica-se ou passa à História?

sexta-feira, novembro 05, 2010

Lenda de Aljezur


Passam as lendas de geração em geração de diversas formas; muitas delas, pela facilidade de imaginação, memorização e transmissão, constituem-se em autênticos rimances versejados, quiçá cantados em festas e feiras... como foi hábito antigo, antes do advento tecnológico-globalizador que associou o "conhecimento" ao clique.

Numa noite de navegante insónia, conheci esta no sítio do Arquivo Português de Lendas (APL) (uma base de dados relativa a um projecto liderado pelo CEAO da Universidade do Algarve), que por seu turno a recolheu de LOPES, Morais, Algarve: as Moiras Encantadas, s/l, Edição do Autor, 1995 , p.158-165. (in http://www.lendarium.org/narrative/lenda-de-aljezur).
Canta assim:

Lenda de Aljezur

Daquelas lendas antigas
Que o Tempo nos vem contar
Uma das mais esquecidas
Quero agora aqui lembrar.
É uma tão triste história,
Tão difícil de narrar,
Que só a lembrança dela
Nos leva, certo, a chorar.
O que nos faz mais sofrer
E o que é mais de arripiar,
É nada se ter passado
Com qualquer filha de Aghar.
Mas vamos de vez ao conto...
— Em outro tempo ant’rior
À vinda dos muçulmanos
Em tumultos de agressor,
Havia aqui, nesta terra,
Tanta paz e tanto amor,
Que até a lua brilhava
De noite com mais fulgor.
Os frutos que as árv’res davam
Tinham tão outro sabor,
Que par’ciam mais do céu
Que desta terra em redor
As aves?.., essas cantavam
Com tão refinados trilos,
Que eram só acompanhadas
Da voz exímia dos grilos.
E as limpas fontes brotavam
Em harmonia tamanha,
Quer de noite, quer de dia,
Pelas faldas da montanha.
Eram as gentes tão dadas,
Tão irmãs do coração,
Que se via serem todas
Filhas de povo cristão.
Foi assim por muitos séculos,
Hora a hora, dia a dia,
E houve até quem lhe chamasse
Terra de Santa Maria.
Foi assim!... Ai!... mas um ano,
- Há que tempo? não sei bem! –
Gente de guerra invadiu
Mar, rios, terras também.
Ali foi tudo passado
A pente de ferro e fogo;
Ai do ser que não fugisse,
Que a morte o tragava logo!
Foram dias de martírio,
Horas negras de tormento,
E dava-se a Jesus Cristo,
Com a vida, o pensamento.
E os feros mouros brutais,
Com sanha de más lembranças,
Matavam homens cristãos,
As mulheres e as crianças.
Foi, como em vulgar se diz,
Uma tão grande razia,
Que ninguém ficou com vida,
Dada à morte a primazia.
Os jardins também morreram,
As fontes, os rouxinóis,
E ficaram cor de sangue
Os ouros dos longos sóis.
Foi aos poucos serenando
A terra convulsionada,
E até as ervas humildes
Nasceram dum outro nada.
Tímidas aves vieram
De novo soltar a voz,
Para que as manhãs e as tardes
Se sentissem menos sós.
Mas uma vez... uma vez,
A brisa da noite trouxe
Um murmúrio tão brando,
Tão magoado, tão doce,
Que a lua, no alto céu,
Ouviu, ouviu e chorou
Choro assim tão melindrado,
Que em chuva se transformou.
Mas a voz?.., essa se ouvia
Mais bela aos pés duma cruz;
Fala que assim murmurava:
“Ai Jesus!”, só... “Ai Jesus!”
Que desconhecida voz
Era aquela, Santo Deus?...
Que não nascia da terra,
Porque até vinha dos céus?
Que mistério era aquele?
E o mouro pensava nisto:
Se havia voz de cristão
Falando inda em Jesus Cristo?
Mas um dia, à hora triste
Dos trovões e vendavais,
A voz potente de Allah,
Dominando os temporais,
Por sobre a terra do Gharb,
Se ouviu grave e formidanda:
— “Essa voz que vós ouvis
“Murmurar, assim tão branda,
“É a voz do encantamento
“Que lancei numa manhã
Sobre uma Princesa linda,
“Filha de gente cristã,
“Que escapou então com vida,
“Da feroz luta tremenda
“Que enterrou em pó e nada
“A derrota da contenda.
“E, se ela viva ficou,
“É tão só para pensar
“Por cinco séc’los sem fim,
“Sempre a chorar, a chorar.
“Depois do tempo passado,
“Se o Cristão força tiver,
“Acaba-se o encantamento,
“Voltará a ser Mulher.
“Mas, jamais, não o creio,
“À Fé deste Deus que eu sou!”
Nunca mais Allah se ouviu
E o temporal amainou.
Fora certo, cinco séculos,
Depois do que foi narrado,
Ainda essa voz se ouvia
Da Princesa, em tom chorado.
Era sempre ao pôr do sol,
À hora de menos luz,
Que o choro mais magoava,
Com “Ai Jesus!”, “Ai Jesus!”...
Entretanto, os agarenos,
Má gente, sem coração,
Levantaram fortes muros
Contra a força do Cristão.
Mas a Fé move montanhas,
Quanto mais muros de pedra,
E não teme a força estranha
Onde só peçonha medra.
E foi assim... certo dia,
Quando El-Rei dos Portugueses,
Acometeu o castelo
Uma vez e tantas vezes,
Que as portas ali se abriram
Em acto de redenção,
À força tão desmedida
Daquele Povo Cristão.
Matavam-se os agarenos,
Mortos pelas próprias mãos,
Nas águas do mar Atlântico,
Perseguidos p’los cristãos.
Logo na manhã seguinte,
Na rasa planície calva,
Se rezou a Santa Missa
A Nossa Senhora de Alva.
Foi quando, perto, se ouviu,
Como saída da Cruz,
A voz sempre entristecida
Dos “Ai Jesus!”, “Ai Jesus!”
Delegou El-Rei saber
Que som magoado era,
Mas logo uma voz soou
Do mais alto duma Esfera:
“Eu te quebro o encantamento,
“Filha de gente cristã,
‘Volta assim a ser Mulher,
“É tua a doce manhã”.
Como por encanto viu
Rei Afonso uma Princesa
Que aos pés do altar ficou
Numa fervorosa reza.
Deu-a o Rei, como Esposa,
A um fidalgo galante,
Que p’ra sempre ali deixou
Dos muros por comandante.
El-Rei Afonso Terceiro,
À memória dando jus,
Quis que o lugar se chamasse,
Daí em frente, “AI-JESUS”.
Que o Povo, por corruptela,
P’ra que ainda o nome dure,
Foi, a pouco, assim mudando
Até ao nosso ALJEZUR.


segunda-feira, junho 28, 2010

A Lenda da Moura de Mariares

1.
Maira sobe a falésia da Carriagem. As saias não são mais do que uns trapos, molhados, presos entre as pernas nuas, para facilitar a escalada. Nus também os seus pés, e como se de outras mãos se tratassem, galga um após outro aquela espécie de degraus escavados na rocha negra e xistosa. Com mais um trapo improvisara uma sacola que enchera de mexilhões e lapas e transportava-a às costas, as pontas traçadas entre os seios. Era o precioso almoço para ela e para Nagib, o irmão mais novo ainda à sua guarda.



Nagib esperava-a deitado no chão, cabeça pendurada, gritando e agitando os braços para a apressar a subir.
- Sobe Maira, sobe depressa! – mas o rugido do mar não deixava que o som chegasse a Maira.
Diferente era o que parecia a Nagib. Adivinhava-lhe a respiração ofegante, e com um pouco de esforço até era capaz de a ouvir, mas ela nem lhe respondia. Há muito que Nagib suspeitava que o som não desce a falésia, apenas a sobe. Sempre que iam ao mar, ele nunca conseguia comunicar com ela; fazia a experiência e ela nunca lhe respondia... O som não desce. Sai da boca e é como um bafo quente em tempo frio. Não desce.
Mas ainda assim, insistia no seu “Sobe Maira, sobe depressa!”
Finalmente Maira assomava ao nível de Nagib e este fez-lhe sinal para parar antes que se erguesse no topo da falésia, tão facilmente visível!
- Pára! Ouves mana? Estás a ouvir-me, ou não? Vão por além uns cavaleiros. Vinham dos lados do sul. Eram muitos, mais de duas mãos.
Gatinhou para junto duma camarinheira e puxou a irmã para que se deslocasse abaixada.
-Acalma-te lá Nagib. Allah Akbar!
- Mas eram muitos, mana, e traziam aquela cruz nos escudos. São os mesmos que estiveram lá na casa.
Instintivamente apoiou-se nos cotovelos e levantou a cabeça. Já se haviam afastado e não avistava ninguém. Mas Maira sabia muito bem o que eles queriam, os espatários de Dom Paio, que já nos dias anteriores a vinham buscando. Escoltavam o seu comandante que dela se enfeitiçara, e a enfeitiçara a ela também. Esse oficial, garboso cavaleiro de fino trato, barbas curtas e lindos olhos negros, que sempre que com os castanhos dela se cruzavam, lhe provocavam aquela agradável e nunca antes experimentada sensação de tremura e doce bem-estar. Esse comandante já não lhe saía do pensamento e era ele o responsável pelas noites de vigília que, desde que estivera nos seus braços, só lhe permitiam adormecer pela madrugada .
- Sossega Nagib, não há razão para arreceios. Alá é grande. - ergueu-se, soltou as saias e alinhou o resto dos trapos. - Vem, eles não nos farão mal.
E tomaram o caminho do Monte dos Ares, cantarolando descontraídos.




2.
Quando se aproximaram do monte perceberam que a picota estava a ser usada. Os cavaleiros tiravam água do poço para saciarem os cavalos.
- Eis-te finalmente! - era o oficial. Quero falar-te. Pode ser aí dentro?
Entraram e fecharam os panejamentos, mantendo-se a casa numa ténue claridade. Logo ali ele a agarrou e lhe beijou os lábios. Maira, sem qualquer resistência, como habitualmente, abandonou-se ao galante cavaleiro. Ele era o senhor do seu coração. Não havia como se lhe opor, nem isso desejava Maira. Duas semanas se passaram desde que se conheceram e logo nesse primeiro encontro ela se lhe entregara. Mal se cruzavam os seus olhares e o cristão e a moura esqueciam o mundo à sua volta.
- Quero que fiquemos juntos, - lhe disse o cavaleiro, mas o Mestre, Dom Paio, quer-me sempre a seu lado. Vem tu comigo, acompanharás a deslocação das tropas.
- Não. Tenho o meu irmão. Eu fico na minha casa; aqui esperarei por vossa mercê. Virá o meu senhor quando quiser.
O oficial reforçou o pedido com um novo beijo. Alegou a necessidade do exército se movimentar, o que não poderia acontecer enquanto não conquistassem a fortaleza da povoação. Os mouros eram guerreiros destemidos e nem sequer permitiam a aproximação das muralhas. As duas tentativas que fizeram haviam sido rechaçadas, com várias baixas nos de Sant’Iago.
Maira regozijou-se com estas lamentações. Por Alá! Os seus eram valentes. Não conheciam a palavra rendição e iriam resistir até ao último homem. Estes cavaleiros bem podiam desistir, poupar as suas vidas e desaparecerem desta parte do Gharb.
- O senhor Dom Paio tem pressa com esta missão. A Ordem quer a praça antes do dia do maior Sol. Isto dá-nos pouco tempo para estarmos juntos. Vem comigo e nada te faltará.
Maira oscilava entre dois desejos. Nunca tinha estado tão perto dum homem e isso descontrolava-a. E logo aquele cavaleiro de mãos de seda e maneiras de príncipe… Mas era um infiel. Alá e esse Deus que ele venerava eram inimigos... Mas o seu coração apressado não a deixava pesar as diferenças. Efectivamente Alá não estava a ajudá-la. Ela queria servir o seu Deus, no céu, e o seu senhor, na terra.
- Pensa melhor… - disse o cavaleiro de Sant’Iago. – Tornarei amanhã. Se me esperares, então irás comigo e passarás a viver na minha tenda.
Colocou o elmo e saiu com grandes passadas. Tomou as rédeas das mãos do estribeiro e galopou numa nuvem de poeira, descendo para o vale. Seguido pelos seus, depressa desapareceram, embrenhando-se na floresta.

3.
Maira estendeu a sua esteira à porta da casa de taipa e aí passou a noite, perscrutando as estrelas e a lua. Amanhã esperaria o seu senhor. Que grandes mangas teria o gibão de Mohammad para nelas guardar a metade da lua! Nagib iria para casa do tio Youssuf. Logo que o seu cavaleiro chegar, (de manhã?), iria com ele sem hesitar. A claridade da noite revelava os contornos da serra, na direcção de Meca. A serra que Nagib cria ter ido ao encontro de Mohammad! Nagib era ainda uma criança, mas já estava recenseado para as tropas do emir ibn Mahfuz. A sorte dele poderia mudar se o seu gentil cavaleiro o protegesse. O seu coração já escolhera e esse, ela não o contrariava, nem tão pouco o controlava. Com ou sem o seu irmão, iria para o acampamento dos espatários.
Ao raiar da manhã, ainda madrugada, Maira banhara-se com água do poço e perfumara-se com as essências que guardava na caixa de madeira que a sua avó lhe oferecera. Preparou uma pequena trouxa de roupa e sentou-se no tronco, à entrada da cabana. Aí assistiu ao nascer do dia, os olhos fixos no bosque, para o lado do mar…

4.
Dom Paio conhecia bem os amores do seu capitão Gonçalo de Ega com a moura Maira e, naquelas vésperas de S. João, foi visitar a sua tenda. Maira, que penteava os seus longos cabelos, levantou-se dum salto e, de olhos no chão, ficou imóvel perante o grande guerreiro.
- Eu sei quem tu és. És a Maira. Eras a Maira, aqui terás um nome cristão, serás Maria. Sabes quem eu sou?
Maira limitou-se a um ligeiro aceno afirmativo.
- Muito bem. Gostas do meu capitão? E de que tamanho é esse amor? O que és capaz de fazer por ele? Sabes o que lhe pode acontecer se não tomarmos esta praça? Vamos travar uma dura batalha e dela só os vencedores sairão vivos, todos os outros serão mortos. Nós, os cavaleiros da cruz, ou os da tua crença. A tua sorte não vai ser muito diferente. Os teus não te vão perdoar teres-te juntado às minhas forças. Com as coisas que tu sabes, podes ajudar o exército de El-Rei e, ao mesmo tempo, ajudares o teu amado. Se a conquista tiver lugar dentro de pouco tempo, nomeio D. Gonçalo meu representante e aqui ficará com uma guarnição. Tu podes ficar com ele… Pensa como nos poderás ajudar. Qual é a tua escolha?
- Senhor Dom Paio, às ordens de vossa mercê. Era Gonçalo que chegava, armado e coberto de pó. – Fizemos mais uma batida… a fortaleza continua bem defendida... são inúmeros os mouros lá dentro.
- El-Rei e a Ordem querem esta fortaleza! Só sairemos daqui vivos se a conquistarmos, senão… - e saiu Dom Paio nas suas largas passadas, mão crispada na cruz da sua enorme espada.
Mais tarde, enquanto dava banho ao seu amante.
- Amanhã, - murmurou Maira, amanhã todos vão ao mar. É o dia maior do ano e todos os homens se vão purificar nas águas da Amoreira, antes do sol nascer. É um velho costume. Só os velhos e as crianças vão ficar na fortaleza.
Saiu Dom Gonçalo de Ega a contar a novidade a Dom Paio e logo se reuniram todos os oficiais na tenda do comandante. Traçados foram os planos. Com a intenção de dar confiança aos infiéis para à vontade continuarem a prática dos banhos anuais no maior dia solar, levantariam já o acampamento simulando a partida e ficariam escondidos na floresta ao norte da povoação. Na madrugada seguinte se concretizaria o assalto.



5.
Mal raiava o dia de S. João, solstício de verão dum gracioso ano da década dos quarenta em tempos do rei Capelo, as tropas de Dom Paio esperaram a saída dos mouros para as praias. Escondidos atrás de moitas que tinham arrancado para se camuflarem, fizeram a sua aproximação sem que a fraca claridade matutina denunciasse o seu movimento.
Um par de velhos mouros que fazia a vigilância naquela madrugada, conversavam para combater o sono. No colo da mulher uma criança, ensonada, com o olhar perdido pela encosta, esfregava os olhos e, inocentemente, perguntava à avó:
- Avó, as moitas andam?
- É o vento. Vá, dorme que ainda é noite. – murmurou a avó Sarifa, enquanto aconchegava a criança com o xaile.
- Mas estão a andar. Eu vejo-as a mexer. Olha ali aquelas! E apontava uma meia dúzia que estavam mais próximo.
Já a velha não foi a tempo de vê-las, uma seta certeira a atingiu no peito. Sarifa caiu, com um ai suspirado, arrastando o neto. Ainda o seu companheiro, Azize, gritou antes de tombar. Mas de pouco serviu o alarme, desguarnecida que estava a fortificação. Sem resistência, as tropas de Dom Paio tomaram a fortaleza.
Foram os mouros intencionalmente informados do acontecido e levados a uma aproximação pelo sul da fortaleza, local onde as tropas portuguesas se haviam emboscado. Ali os aniquilaram.
Não lhes poupou as vidas Dom Paio, nem os corpos. A todos mandou decapitar, provocando um rio de sangue que corria pela encosta abaixo. Enterrados ficaram os corpos a sul da fortaleza, e foram as cabeças levadas para serem enterradas ao norte da povoação.
Os duas colinas ainda hoje são conhecidas por nomes lembram essa chacina. Ao sul, Degoladouro, e ao norte, Cabeças.

6.
Não conta a História mas reza a lenda que Dom Paio constituiu uma guarnição para a fortaleza de Aljezur e deu o comando a Dom Gonçalo, e que este, no final da sua vida, mandou construir uma nova casa no Monte dos Ares, para onde foi viver os últimos dias na companhia de uma moura, Maria, que o servia.
Nas noites de luar sentavam-se num tronco, no varandim, olhando a serra na direcção de Meca. Às vezes Maira perguntava-lhe porque é que Mohammad metia a lua na manga do gibão, e ele sorria, sem responder...

A Descoberta da Lenda de Mariares

Num velho baú da arrecadação da Casa Grande, dando voltas a coisas antigas, passou-me pelas mãos uma bolsinha de pano-cru que continha um manuscrito amarelado e ressequido, dobrado e redobrado.
Quase a desfazer-se ainda permitiu perceber a caligrafia antiga, certa, em linhas traçadas à régua, como era costume naquele tempo. Podiam ler-se quase todas as palavras. O nome de Francisco Inácio escrito numa das margens do papel, parecia querer identificar o autor do texto, ou o copista, assim como a data de 24 de Junho de 1844.

Já não era o primeiro texto de Francisco Inácio que eu encontrava naquelas velharias, pelo que já me tinha familiarizado com a sua caligrafia e também com a forma como ele exprimia a sua visão da História, temperando-a em prosas a seu jeito. Tratava-se um antigo oficial da Marinha de Guerra que se recolhera a Aljezur depois de aposentado. Homem de cultura, foi muito admirado na sua época pelos serões que promovia na sua Casa Grande, e também por ter ensinado a ler e escrever toda a sua criadagem.
Desta vez, o texto reproduzia a Lenda da Conquista de Aljezur aos mouros, também conhecida pela Lenda da Moura de Mariares, que adaptei (nas partes de mais difícil percepção) e passo a transcrever, para que conste...

quarta-feira, abril 14, 2010

Tradicionalizando: Ainda a Páscoa


Quem se lembra de ir partir o folar ao campo? Na segunda-feira a seguir à Páscoa, quase sempre naquele lugar designado por “Ao Caminho da Praia”; não por falta de outros sítios (imagine-se!) mas simplesmente porque sim, ou porque tinha bom piso para as senhoras e era mais fácil controlar a pequenada.
Os homens, natural e tradicionalmente, mantinham-se alheios a esta actividade meio santa meio profana, preferindo a semeadura de prosa pelas vendas.
Éramos uns quantos putos, mesmo putos, de oito ou nove anitos. Moçada da mesma idade, tínhamos o nosso grupo. Fazíamos a guerra dos assaltos ao castelo, ou do “camoniesse” e do “manzuar”, verdadeiros Cisco Kids de pistolas de pau.
Meninas à parte, que o faroeste era só para homens, e o nosso jogo não tinha “saloon”.

A Coca Cola era proibida e os pacotinhos de sumo ainda não tinham sido inventados. Quanto muito uns pirolitos, para os mais abonados, ou umas limonadas (caseiras) para os mais finos. Nós, os menos, desembaçávamos com aguinha da ribeira, ainda bebível, colhida nas mãos em concha na corrente acima das pedras de lavar roupa.

Se não chovesse, era uma tarde daquelas. Regressávamos esgotados e sujos, transbordando de alegria, comentando as cenas dos filmes que criáramos, em que “o rapaz” chegava sempre na hora de libertar os outros “cobois” e prender os bandoleiros.



Éramos os maiores do nosso tempo e representávamos à vez o Audie Murphy, o Alan Ladd ou o John Wayne. “Camoniesse”!

sábado, abril 03, 2010

Tradicionalizando: Contratos da Páscoa

“Contrato, contrato, contrato fazemos” e enganchávamos os dedos mindinhos da mão direita, sacudindo os respectivos braços num sobe e desce ao ritmo da ladainha, e continuávamos “Sábado de Aleluia desmancharemos e Domingo de Páscoa nos pagaremos!”, se não me falha a memória, logo depois dos toques das matracas, numa excitante esconde e busca. Era assim na Semana Santa, uma tradição que cumpríamos desde pequeninos, começando com os adultos da casa ou da vizinhança, passando à fase dos colegas da escola e por fim, praticando (reminiscências) com as namoradinhas ou com aquelas que gostaríamos que viessem a ser.
Li num destes dias que em algumas localidades o prémio era um saco de amêndoas. Admirei-me, pois saco de amêndoas era uma coisa que, se aparecesse lá por casa, era único e maternalmente administrado para chegar para toda a família. Os nossos eram apenas confeitos, uns pequenitos que tinham um pinhão dentro. Com o seu justo ou exagerado aumento de valor, tem vindo a ser substituído por um grãozinho de alcagoita.
As procissões, com o respectivo sermão no Largo da Câmara (antiga), levavam ao êxtase a população religiosa da vila. Eram sobretudo mulheres, e alguns dos homens parecia estarem presentes apenas por dever ou imposição, funcionários ou “forças vivas”, vestiam as opas e transportavam os andores, exibindo as suas melhores fatiotas.
Mas apesar de não participarem nas celebrações religiosas, os homens não deixavam de afunilar as pernas em cotim novo, e as botas, com fileiras de cardas novas, a bater a cadência nas calçadas.
Há memórias neste texto que só vim a compreender uns anos depois dos “contratos”, quando a minha mãe, mais uma vez não resistindo às minhas insistências, teve de me costurar umas calças novas de cotim militar, com bolsos cortados e tudo, para eu estrear na feira do Rogil, ou melhor dizendo, no baile da feira do Rogil, para onde me desloquei... a pé, claro!
Tinha aquela fé no profano, pois a feira do Rogil nem sequer é na Páscoa!