sábado, setembro 27, 2014

A ciência da mentirinha ou a mentirinha da ciência


A notícia publicada pelo Sul Informação e que foi divulgada pela Elisabete Rodrigues na rede social FaceBook no grupo “Aljezur, imagens de um concelho” de que também sou membro chamou a minha atenção.
Os números não mentem, mas a forma como são apresentados, neste caso de forma absoluta, podem iludir o seu verdadeiro significado, face à sua consideração em termos relativos.
Aqui fica uma pequena divagação sobre o tema, independentemente de não se fazer um ajuste do conceito de desempregado que, para o IEFP tem um significado mas que, socialmente, pode ter muitas outras interpretações. Basta lembrar que se um sujeito que não encontra trabalho não estiver inscrito no Instituto de Emprego, esta organização desconhece-o e, consequentemente, não entra na estatística, ou ainda, mesmo estando registado mas se for “deslocado” para uma formação ou para um estágio(zinho), também passa a ser considerado noutra categoria, e etc., etc..
Resultados (na net) de um censo de 2012, que poucas alterações terão para a actualidade, levaram-me a calcular a relação entre o número de desempregados e a população, chegando assim a umas percentagens da população de desempregados face à totalidade da população.
Numa perspectiva diferente.
Com efeito, considerando apenas o número de desempregados, Aljezur aparece relativamente bem posicionado 14º lugar, com apenas 225 desempregados, separado somente por dois outros concelhos para a melhor marca.

Concelhos
 Num Habit 2012
Desempregados
% Desemp




Faro
62 281
3 223
5,17%
Portimão
55 209
3 196
5,79%
Loulé
69 824
2 963
4,24%
Olhão
45 216
2 312
5,11%
Albufeira
40 190
1 265
3,15%
Silves
36 724
1 237
3,37%
Vila Real de Stº António
19 067
1 123
5,89%
Lagoa
22 783
1 110
4,87%
Lagos
30 776
1 038
3,37%
Tavira
25 753
963
3,74%
S. Brás de Alportel
10 552
446
4,23%
Monchique
5 755
301
5,23%
Castro Marim
6 588
263
3,99%
Aljezur
5 724
225
3,93%
Vila do Bispo
5 223
100
1,91%
Alcoutim
2 725
66
2,42%


444 390
19 831
4,46%

Porém, esses 225 desempregados representam uma percentagem da população superior à de outros 6 concelhos do Algarve, passando Aljezur para um menos modesto 10º lugar.
Concelhos
 Num Habit 2012
Desempregados
% Desemp




Vila Real de Stº António
19 067
1 123
5,89%
Portimão
55 209
3 196
5,79%
Monchique
5 755
301
5,23%
Faro
62 281
3 223
5,17%
Olhão
45 216
2 312
5,11%
Lagoa
22 783
1 110
4,87%
Loulé
69 824
2 963
4,24%
S. Brás de Alportel
10 552
446
4,23%
Castro Marim
6 588
263
3,99%
Aljezur
5 724
225
3,93%
Tavira
25 753
963
3,74%
Lagos
30 776
1 038
3,37%
Silves
36 724
1 237
3,37%
Albufeira
40 190
1 265
3,15%
Alcoutim
2 725
66
2,42%
Vila do Bispo
5 223
100
1,91%




Total
444 390
19 831
4,46%
Mas, conclua-se, a região do Algarve está, percentualmente, afastada das médias nacionais (13,9% no primeiro semestre 2104). 

Para melhor compreensão, também convinha considerar a sazonalidade do emprego na região, entre outros factores cujo estudo e desenvolvimento não cabe nesta superficial avaliação. Quem sabe... um dia.

sexta-feira, agosto 15, 2014

Mais de antigamente...

Em dia de Festa não podia faltar a procissão, ou melhor, as procissões, pois na altura os santos mereciam mais respeito e devoção. Saía uma da Igreja Matriz (a Nova) e outra da Igreja da Misericórdia. No ponto de encontro havia sermão inflamado pelo Pe. Oliveira, ou seus sucessores após a sua ida para Lagoa. As mulheres comoviam-se e os homens, suspendiam o copo e o cigarrito, e lá tiravam o chapéu, tementes na generalidade, que os santos fazem milagres mas também castigam...

Esta é a fotografia possível, registando a viagem da padroeira Senhora D'Alva, do seu altar habitual ao encontros de outros membros da família residentes na vila velha: o Filho, a prima Isabel e o João.


Procissão da Senhora D'Alva em Setembro de 1965

quinta-feira, agosto 14, 2014

Antigamente...

Vasculhando a caixinha dos retratos num momento de viagem nostálgica, aqui fica a primeira duma série de memórias que se hão-de vir a publicar, de-va-gar-men-te, para manter activo o bichinho da saudade no pessoal daquele tempo.



Aljezur, Largo da Igreja Nova - Jogos Tradicionais em dia de festa - 13 de Setembro de 1965

segunda-feira, dezembro 23, 2013

O Nosso Castelo na Bandeira Nacional


Desde sempre, nos círculos familiares, havia alguém que conhecia coisas e coisas e nos fascinava com tantas histórias, nos intermináveis serões das noites de inverno. Na minha família era a Tia. A Tia sabia de tudo, opinava sobre todos os temas que vinham à baila, fazia recomendações, sempre para levar a sério, e contava-nos histórias, muitas delas passavam para as noites seguintes, longas e complicadas que eram. Uma das vertentes que era frequentemente abordada era a da valentia dos portugueses, e particularmente dos aljezurenses, nas lutas travadas contra os Mouros e a integração do Reino dos Algarves nas posses de Sancho II e Afonso III e, consequentemente, no cognome deste. E aqui vinha sempre a explicação da Bandeira Nacional, enaltecendo que o Castelo de Aljezur era um dos sete que figuram naquele pendão, o que para nós nos enchia de orgulho patriótico e regional.
Esta minha Tia juntamente com tantas outras Tias contadoras de histórias a gerações de aljezurenses, foram assim responsáveis por termos crescido com este mito, alimentando-o e veiculando-o orgulhosamente aos nossos descendentes e divulgando-o junto da nossa rede de relações.

Uma obra literária muito interessante que já neste blogue divulgámos, “Aljezur, Terra Mimosa” de Manuel Garcia (1938) e que constitui motivo de orgulho para muitos aljezurenses (apesar da Senhora D. Câmara o continuar a ignorar esquecendo-se uma reedição) refere também esta situação (vide http://barlaventino.blogspot.pt/2011/04/o-brasao-de-aljezur.html).

Também em nosso modesto entender não passa de mais um mito, possivelmente motivado por um desejo de reivindicar importância para a nossa terra (e para as outras seis), cuja justificação histórica ainda jaz adormecida nalguma recôndita prateleira da Torre do Tombo.

Conta-se então que os sete castelos da Bandeira Nacional dizem respeito às últimas conquistas algarvias, e que foram Albufeira, Aljezur, Cacela, Castro Marim, Estômbar, Paderne e Sagres.
Nem sempre foram sete os castelos da Bandeira, tendo mesmo o painel de D. Afonso III 16 castelos em dois desenhos diferentes; como foi feita a sua selecção também não se sabe.

Aqui deixo alguns exemplos das armas nacionais ao longo dos tempos para melhor podermos apreciar essa evolução.

D. Afonso III - 16 castelos
D. Afonso III (diferente disposição, 12 castelos)

D. João I (ainda os 12 castelos)
D. João II (7 castelos)


D. Manuel II (8 castelos)

Bandeira Actual (7 castelos)
O nosso objectivo é apenas o levantar duma questão que subsiste sem resposta: trata-se apenas de um mito, histórico, ou nele está contida alguma verdade para além do simples desejo que assim fosse?

Fica a dúvida sobre o tema e fica também o desafio:

Desmitifica-se ou passa à História?

segunda-feira, dezembro 09, 2013

Estórias Barlaventinas - Doutrina ou Jogar à Bola?


Não percebia, na altura, por que razão havia de ir para a “doutrina” na Igreja da Misericórdia ‑ catequese é uma palavra que só aprendi alguns anos mais tarde, noutros ambientes já longe deste Algarve serrano e marinheiro. Com os meus nove aninhos, tinha nos joelhos escanzelados as marcas do que me divertia: a rua, as correrias, a bola, as guerrinhas. “Sempre na vadiagem com a moçada!”, clamava a avó. Correr pelo Caminho das Piteiras até ao Degoladoiro e descer a rua da Ti Bia até à estrada, ou voar até ao Cerro do Forte, fugir pelas Cabeças e descer para “abanhar” na Ponte-Pedra, culminando com uns mergulhos na confluência das águas límpidas (naquele tempo) da ribeira do Areeiro, sem vergonha de mostrar as vergonhas às lavadeiras. Pois não percebia. A “doutrina” era uma espécie de prisão, e eu, um pintassilgo na gaiola a piar pela liberdade; irrequieto, não correspondia nem com a atenção nem com a compostura que aquelas meninas aburguesadas exigiam para a salvação e purificação do “Pelo Sinal”.

Lá em casa não éramos de santos nem de benzeduras. A minha mãe tinha a família e o campo para cuidar, não lhe sobrando tempo para mais do que um “Valha-me Dés”, e o meu pai preocupava-se mais com a Terra do que com os Céus, guardando o pouco tempo das noites para Banda Filarmónica e para a escola de Esperanto, a seguir à cafezada.
O senhor padre Domingos apreciava mais a Banda do que a aprendizagem daquele linguajar pouco católico do Zamenhof e mandava-lhe umas indirectas nos cafés da vila, a ele e aos outros “pobres ignorantes” que se distraíam com a conversa sem se aperceberem que os homens da santas sacristoas estavam por perto. O café dos Rolos ou o café Silva, este mais popular e aqueloutro mais aristocrático, eram naqueles tempos a alternativa às vendas e por ambos passava a patrulha da guarda a pôr o visto e para ser vista. Algumas mesas tinham clientela certa, ninguém se atrevendo a ocupá-las: o senhor presidente da Câmara e o padre Domingos eram geralmente os primeiros a chegar, depois o doutor notário e, lá para mais tarde, um ou outro lavrador. Liam “O Século” e comentavam as diatribes do Pandita Nehru atrás das nossas Índias, com um olhar perscrutador através das nuvens de fumaça, das reacções dos outros homens. Nas noites de cinema, trocavam palavras de entendidos sobre os filmes anunciados no prospecto do “Aljezur Sonoro Cine”, que alguns já conheciam de Lagos.

Por causa disto tudo, que eu só vim a perceber uns anos mais tarde, é que o padre me perguntou se os meus pais sabiam que eu andava na doutrina.
–“…dos nossos inimigos” – interrompi ‑ foi a Madrinha que me mandou vir ter com a menina Mariazinha.
‑ Ah! A Madrinha, aquela santa senhora. Então porta-te como deve ser.
‑ Sim senhor, eu cá porto-me sempre bem. – Saiu-me a resposta, pronta.
O padre e a menina Mariazinha recolheram-se ao canto do altar e, pela maneira como alternadamente me olhavam, esconfique tavam a falar de mim. Mas eu porto-me sempre bem, consolei-me, e fiz bem em lhes dizer, que era para eles não pensarem coisas. Quando a Madrinha mandava era para se fazer, senão acabavam-se aqueles lanches de encher a barriguinha: fatias de pão de canto a canto com o coalho do leite e açúcar, estrelinhas de figos torrados e docinhos de casamento, que só lá…. E ela tinha prometido à minha mãe dar-me um terço especial, benzido pelo Bispo. Se me portasse mal, lá se iam estes convidados e eu ficava era a ver os outros afilhados no brequefesta, se outro castigo não me acabedasse.

Quem já soubesse persignar-se, que nós chamávamos o “P’lo-sinal” e o “Nome-do-Pai”, ia fazê-los em frente da menina Mariazinha e podia sair mais cedo. Eu fui o primeiro a pôr-me na frente dela mas só me despachou a seguir à MariJoão e à Marizabel. Não me apoquentava a demora, mas elas ficaram para fazer-me arrenegas à saída da igreja. Já lá dentro tinham levado o tempo todo a fazer caretas e deitar-me a língua de fora, coisas que a menina Mariazinha nunca via; ela só via quando era eu a fazer qualquer coisa. Então tive que me impor. Fomos brincar ao Senhor Barqueiro no pátio do hospital, logo por trás da igreja. Quando chegou a vez da Marijoão, respondi-lhe o “passará, passará, mas algum ficará” e desmanchei-lhe o laço do vestido, e à Marizabel, “passará, passará, mas a bandelete ficará” e tirei-a e transpuze-a por cima do paredão, para o meio da estrumeira do hospital. A seguir fugi e elas ficaram as duas a chorar.

Fui a correr até à da minha tia para lanchar uma fatia de pão com manteiga encarnada e ainda cheguei a tempo de entrar no jogo da bola que ia começar no Cemitério Velho. Cinco de cada lado, seleccionados alternadamente pelos chefes de equipa, o Inaice Zé e o Joanito, que antes tinham saltado na direcção um do outro e coberto a distância restante com os pés, o esquerdo depois o direito, e assim, até tocarem no do adversário, para decidirem qual seria o primeiro a escolher. Fiquei com o Inaice. O jogo durou até ao sol-pôr, quando a mãe dele se fez ouvir num chamado que chegava a todos os cantos da vila onde houvesse a miudagem. Ganhámos 2-0 e ficou logo marcada a desforra para o dia seguinte. Alguns ficámos ainda por ali, discutindo os golos e os falhanços.
‑ Viste o chuto qu’ê ca di? – gritava o Luís, ‑ Eh pá, aquilo nam tinha mesmo defesa, nem o Costa Pereira a apanhava.

*

Quando cheguei a casa já se sabia das minhas bolaretas com as moças. O meu avô disse-me logo que tinha vindo a vizinha Zabel a queixar-se da bandelete da filha.
- Chico, anda cá! – a minha mãe chamou-me à cozinha assim que me sentiu em casa. – O que é que andaste a fazer? Não posso estar descansada contigo!
‑ Mãe… ê cá nam fiz nada! – respondi assim a ver se pegava. – Elas é que levaram a doutrina inteira a meterem-se comigo! – funguei – E a menina Mariazinha nunca as vê a elas. Ê cá nam fiz nada! – e só para mim, remordendo,  ‑ Moças dum raio, ai quando as apanhar!
A minha mãe nem levantou os olhos do tacho das papas que ia mexendo com o colherão, enquanto deixava cair a farinha de milho lentamente, por entre os dedos. Ainda me disse:
‑ O teu pai vai saber e não te vais safar, já sabes…
O meu avô passando o seu braço sobre os meus ombros, solidário, disse-me baixinho naquele seu tom calmo e terno:
‑ Deixa lá, menine, na há-de ser nada. O que é preciso é levares a doutrina até ao fim e a senhora Madrinha na se zangar. Às mecinhas nada de mal lhes faças… que é tudo a brincar.
O meu pai não tardou. Já sabia, é claro.
‑ Anda cá, ‑ e apertou-me no meio das suas pernas, ‑ andas então a pregar peças às moças! Isto agora é todos os dias? Pára com isso. Ouve bem o que eu te digo: ou entras nos eixos, ou temos o burro nas couves!
E ficou assim. Não era para brincadeiras nem me batia, mas castigava-me doutra forma que me doía ainda mais. No domingo passava um filme que eu queria ver, “O Pirata Vermelho”, cujos cartazes já me faziam imaginar aventuras de viagens e batalhas nas caravelas das descobertas. O rapaz era o Burt Lancaster.
‑ Querias ir, não querias?
Olhei-o com os olhos já a quererem chorar. Se ele não me levasse, como é que eu iria viver aquelas aventuras com a malta?
‑ Paiiii… Ò pai, leve-me lá… Ò pai, leve-me lá que eu porto-me bem! Ò pai… a minha travessura foi pequena… e eu até gosto delas… Leva-me?
Foi um grande filme… cinemascope e a cores!

No Sábado a seguir lá tive que voltar à Igreja, mesmo contrariado. Não gostava mas passei para a lição das Avé-marias. As moças não passaram, ficaram tufadas e cansaram-se das carantonhas e eu, de peito inchado, consegui um “muito bem” da menina Mariazinha.
Como o meu pai me explicara a seguir ao cinema, cada um tinha o seu trabalho e a obrigação de o fazer como devia de ser; a escola e a doutrina eram o meu trabalho, tinha que o fazer bem. E fazia-o.


‑ Foi um ganda filme, na foi mê pai?

quarta-feira, setembro 18, 2013

Estórias Barlaventinas - O primeiro dia de Escola


Levei quase um ano com a Zulmirinha. Ensinou-me a ler e a escrevinhar qualquer coisita, sempre com incentivos de figuinhos secos ou torrões de açúcar pela lição sabida ou cópia sem erros. Lá estagiei e ganhei confiança e lá conheci a minha professora (a que viria a ser) que morava mais abaixo e que dava sempre vaia. “Francisquinho, lá te espero para Outubro”. “Sim minha senhora”.
A Escola Primária de Aljezur (*)
 
E esse Outubro finalmente chegou de céu embrulhado, ansiosamente esperado. A escola começando na primeira semana ‑ no meu ano foi a 6, logo a seguir ao dia da República (fosse lá o que isto fosse, só compreendido alguns anos mais tarde). Um dia diferente de todos os outros, um primeiro dia. Preparara tudo de véspera: uma mala castanha de papelão, brilhante nas suas cantoneiras de lata, e lá dentro, a pedra com o respectivo lápis-de-pedra e o indispensável trapinho para apagar, um caderno de duas linhas, lápis de carvão e caneta de aparo, e o Livro, esse que acabei por saber de cor e salteado. Pouca coisa que saltitava dentro da mala à medida que eu voava pela ladeira abaixo, nas minhas sandálias novas de sola de pneu, como dizia o mestre Manel Gil, que as fizera: “Com estas até voas! Levam sola de avião”.
…que acabei por saber de cor…

Ia orgulhoso, no meu bibe branco, a estrear, com abotoadura ao lado esquerdo e um cinto para apertar e franzir.
‑ Vai pela beira da estrada, cautela com os carros!
Éramos muitos, de branco, pela berma da estrada a caminho da Escola. Moços e moças. Uns já conhecidos, outros a conhecerem-se. Os mais velhos a fazerem já as suas filistrias ou a defenderem os seus amigos. “Este é o Chico, é meu primo, vejam lá, hem?!”
Eu nunca tinha visto tanta moçada junta. Reunimo-nos no pátio. Os mais novos pareciam identificar-se mutuamente e ficávamos juntos, à espera.
‑ Práqui os da primeira e práli os da terceira, – a voz autoritária da prima Marcolina que com o seu ponteiro de cana-da-índia tocava as novas ovelhas para junto da parede, numa formatura dois a dois.
Ficámos quietos e inquietos durante uns segundos que pareceram horas. A “contina” mantinha os rapazes alinhados até que se ouviu lá de dentro um “mande-os entrar”.
Entrámos para a sala, grande, cheia de carteiras em quatro filas. “Ninguém se senta sem eu dizer”. A professora começou a chamar-nos pelos nomes, indicando o lugar onde cada um devia ficar. Os da primeira classe nas primeiras filas, e os da terceira nas filas de trás. “Menino Francisco, a seguir.”
O meu olhar percorreu toda a sala. À nossa frente, sentada a uma mesa de tampo preto, a senhora professora. Sobre a mesa alguns papéis, um estojo de vidro com dois tinteiros, um azul e outro encarnado, e uma tabuinha estreita, com dois dedos de altura. “Será a régua?” perguntei-me, arrepiado. Por trás da professora um crucifixo como o que a Madrinha tinha por cima da cama. Mais para o lado, o quadro, preto, tão preto, estranho, com um estrado por baixo. Ao longo da parede estavam uns armários, duas fotografias em moldura, cada uma com um velho penteadinho, e ainda uma janela fechada com a bandeira a fazer de cortinado, que afinal não era nem uma coisa nem outra: era uma caixa que se chamava vitrine, e a cortina não era cortina, mas sim a verdadeira bandeira nacional como aprendemos mais tarde.
Finalmente, já todos sentados, a professora encarou-nos a todos. Segurava também um ponteiro, como a prima Marcolina. Passeou-se pelos corredores, passada larga, larga de mais para as suas curtas pernas (éramos quase do mesmo tamanho!). Ia falando, devagar. “Isto é uma sala de aula”, “Os meninos aqui só falam para responder às minhas perguntas”, “ Aquele que se portar mal, já sabe, habilita-se a umas palmatoadas”, “Aqui não há paizinhos nem mãezinhas”, “Quem precisar de fazer as necessidades, levanta a mão e pede “Senhora professora, posso ir lá fora?””.
Estávamos a ficar um pouco assustados, enquanto os da terceira faziam sorrisinhos parvos.
- Calados! O menino Zé Luís vai ao quadro escrever a data: 6 de Outubro. – Dirigia-se a um dos da terceira classe.
A professora fez revisões (que eu não sabia o que era) com os da terceira, e nós ficámos a fazer desenhos na pedra até à hora do almoço. Ao meio dia houve ordem para sair, e toca a correr a caminho da manja, que à uma e um quarto tínhamos de estar de volta. Alguns dos meninos do campo ficaram na escola e atacaram os seus farnéis nos cestinhos de vime. Depois brincavam o resto do tempo no recreio. Invejei-os e insisti com a minha mãe para que me preparasse também um farnel.
– Pensas que isso é uma coisa boa, mas não é! Bom é vires a casa e comeres a comida da família. – Tinha razão, como sempre.
O almoço foi muito rápido e depressa integrei o grupo do pessoal da vila que regressava à escola. Ainda tivemos tempo para correrias e brincadeiras antes de formar para a entrada, agora cada um com o seu companheiro de carteira. O meu era o Zé Francisco, que vinha do Moinho da Várzea.
Este dia marcou-nos a todos… o primeiro dia de escola. Pessoal da vila e pessoal que vinha dos montes à roda, de sítios que só eles pareciam conhecer, Corte daqui, Vale de lá… todos sabendo coisas que outros não sabiam, generosamente partilhando esse conhecimento e prometendo novidades nos dias seguintes: “Trago-te uma forca nova para o teu atirador!”, “Tá bem, e eu dou-te um berlinde de pirolito!”. Logo ali nasceram as mais firmes amizades que amadureceram ao longo da vida, e duram até hoje, já noutro século…
(*) Fotografia retirada do site da Junta de Freguesia de Aljezur em http://jf-aljezur.pt

Estórias Barlaventinas - Queres ir à praia?


Domingo de finais de Junho, quente e sem escola. O meu pai saíra cedo para o mar. Ouvi-o conversar com a minha mãe: ia fazer a maré e depois dar uma ajuda no Casino. O Costa e o Zé da Luz tinham-lhe pedido essa ajuda para fazerem o terraço do Sargo e ele não podia dizer que não. “Ajudar os primos não é favor.”
A cozinha cheirava aos ovos com chouriça do farnel do meu pai. Salivei e levantei-me num salto para ir passar um pedaço de pão na frigimenta, petisco fino antes do café.
Salpiquei os olhos no lavatório da cozinha, enfiei as calças curtas e as sandálias (de sola de pneu fabricadas pelo Sr. Manel Gil, da Igreja Nova) e saí a correr a desafiar o Zé Rogério.
– Queres ir à praia? – sussurrei pelo postigo – Vamos ao Monte Clérigo, vamos ver o Casino.
Não demorou nada e o Zé Rogério saltou pela janela.
– Anda – e começou a subir a ladeira para o Castelo.
– Espera Zé Rogério. Vamos pelo Castelo? Direito aos Montes Galegos? Por ali é mais perto – e apontei lá para trás, o caminho das hortas e da ribeira. – Vamos ter ao Vale Palheiro e subimos por lá. Eu sei o caminho.
 
E assim fomos saltitando, caminho abaixo, abrindo o peito ao ar da manhã. Passámos ao largo da Fonte das Mentiras, atentos e receosos, não fosse o Viva-à-Rússia estar lá ao pé, e seguimos os contornos do cerro a caminho do Vale Palheiro. Não havia que enganar, era caminho à vista. A vila por trás e o monte dos lavradores pela frente. O casqueiro na cabeça protegia do sol mas a sede já apertava. Ao nos aproximarmos do monte os cães começaram a ladrar e apareceu a senhora Joaquina, surpreendida.
– Por aqui a esta hora! Onde é que vão vocemecês, mecinhos?
– Vamos ao Monte Clérigo ter com o meu pai! – resposta pronta, convincente – temos é um bocadinho de sede…
Ela foi buscar um púcaro e deu-nos água da bilha, fresca. Os nossos olhos fixaram-se no pão sobre a mesa.
 – É carne frita, – murmurei para o Zé Rogério, e insisti – é carne frita!
A senhora Joaquina não ouviu, mas até pareceu que tinha ouvido. A sua mão grossa segurou o pão e a faca e partiu duas fatias. Untou-as com a gordura do tacho e aplicou-lhe dois piques de carne.
– Vá comam. Os moços têm sempre vontade. E se vão para tão longe…
– Ainda é muito longe? – O Zé Rogério, receoso. – Vê-se daqui?
– Quando chegarem lá em cima, estão a meio do caminho, – explicou a senhora Joaquina, – as mães sabem de vocês? – Acenámos afirmativamente. – De certeza?
– Sim, sim, vamos ter com o meu pai. Vamos Zé. Obrigado. Té má logue!
Subimos a ladeira e levámos algum tempo a chegar ao caminho da praia. Aí sentámo-nos na berma da estrada. Não se via ninguém. Estrada para a frente e estrada para trás. Escondida pelas curvas, voltava a aparecer lá longe, muito longe. É verdade que já nos doíam as pernas, estávamos cansados e de novo cheios de sede. Ficámos ali parados.
– Para que lado fica o mar?
– Olha Zé, acho que é… além, tás a ver?
– Na tou a ver nada. – fungou o Zé Rogério. Já não sei para onde é.
– Olha! – gritei, apontando na direcção do velho celeiro. Um carro de mula! Estamos com sorte.
Era o senhor Manel Zé, do Palazim, que naquele tempo alugava o seu carrinho para pequenos fretes. Carregava mobília para uma família de veraneantes. Esticou as rédeas da mula e com um “Aí, Boneca, aííí!” parou o carro junto da gente.
‑ Eh! Vocês! Que andam por aqui a fazer, sozinhos? Vadiando?
‑ Não senhor, somos da vila e vamos à praia ter com o meu pai que está a trabalhar no Casino.
‑ E têm pernas para tanto? É mais longe do que pensam. Vá, cá pra riba.
Ficou mais curta a nossa viagem e mais agradável, de carro e com companhia. Pela minha parte já não podia com as pernas e o Zé estava na mesma. A Boneca era ligeira e depressa chegámos à curva da altura com o Sr. Manel a dar à manivela do travão, que o carro não podia embalar. Íamos felizes, eu e o Zé Rogério. O mar estendia-se até perder de vista, sereno e imenso, encandeando-nos com o reflexo do sol.
‑ Onde é o fim do mar? O que haverá para lá?
‑ És curioso! – o Sr. Manel Zé parecia adivinhar os meus pensamentos, ‑ Perguntas aos teus tios que te explicam. Eles que são homens do mar, e já correram este mundo e o outro. Para além, lá muito longe, muito longe, fica a América. Já ouviste falar?
Não, ainda não ouvira falar. Só do Américo, da Igreja Nova, ajudante do Sr. Bertolino caldeireiro; será a mulher dele? Que não, não era nenhuma pessoa. América era uma terra, com muita gente rica. Todos os miúdos têm bicicletas e toda a gente tem carro. Quando era mais novo teve uma carta de chamada, mas não pôde ir por mor dumas sezões que apanhou. Tinha pena…
Então os meus tios da marinha é que conhecem a América. Devem ser o Tio João e o Tio Eugénio que mandam aqueles postais ilustrados com fotografias de navios e de cidades desconhecidas. Ora fosse eu marinheiro e iria conhecer essa América.
‑ Zé Rogério, quando a gente crescer não queres ir para a marinha? Os meus tios arranjam lugar prá gente, certezinha.
 
Chegados ao fim da estrada, lá estava o Casino. O Casino! Nunca tinha visto um casino e não me pareceu lá grande coisa. Era uma barraca de tabuinhas pintadas de branco e azul e telhado de braceja, uma casa como as outras naquela rua de areia onde custava a andar. Dizem que foi o Negus que a fez, mas disso não tenho a certeza. Negus, o rei da Praia do Monte Clérigo, um rei sem reino nem reinado, tão queimado do sol que parecia um africano, e se calhar até era… da Abissínia.
Estavam uns homens trabalhando no terraço ao som da gaita do Sidónio, mas do meu pai nem a sombra. Comecei a ficar aflito. Descobri o parente Costa e perguntei-lhe. O meu pai já partira para a Amoreira.
Foi assim uma espécie de dor de barriga, e o Zé Rogério que nem menos. Cansados e sem comida, a situação não tinha grandes saídas.
‑ E agora Xico, o que é que a gente vai fazer?
‑ Deixa, ‑ que decidido eu era! ‑ Vamos ter com o Sr. Manel Zé e ele leva a gente prá vila outra vez.

Chegámos à vila pela tardinha e desembarcámos ao pé da Praça. Tínhamos faltado ao almoço e agora era preciso explicar. A minha mãe tinha ido para as ceifas do meu avô e eu havia de ter ido comer à da minha tia da vila. Por aí a coisa resolvia-se. O pior era o Zé Rogério.
‑ Dizes que vieste comigo à da minha tia da Igreja Nova.
E disse. 
 
 

Não faltava imaginação aos nossos oito anos de idade. Foi a nossa grande aventura. Sozinhos a caminho do Monte Clérigo, regressando com um sonho de marinheiros descobridores das terras distantes do além, do outro lado do mar…